Embora já tenha uma necessidade operacional crescente para sistemas de armazenamento em baterias (BESS), especialmente diante do aumento do curtailment e da expansão das fontes renováveis, o Brasil ainda precisa transformar essa demanda técnica em um ambiente regulatório capaz de dar previsibilidade e segurança para investimentos de longo prazo. A avaliação é do country manager da Atlas Renewable Energy, Fabio Bortoluzo.
À pv magazine Brasil, o executivo disse que a companhia vem avaliando o potencial do armazenamento no Brasil a partir da experiência adquirida com projetos como BESS del Desierto, Estepa I e II e Copiapó Solar, no Chile, especialmente no que diz respeito à redução de cortes de geração e ao aumento da flexibilidade operacional das usinas renováveis.
“As projeções desenvolvidas pela Atlas a partir da experiência do projeto BESS del Desierto indicam que, após um pico de vertimento estimado em 279.516 MWh em 2025 na usina Sol del Desierto, a ampliação da capacidade de armazenamento poderia reduzir os cortes de geração em cerca de 53% nos três anos seguintes e em até 76% até 2037”.
Os resultados poderiam ser replicados no Brasil, onde os cortes de geração renovável ultrapassaram os 2 GW nos primeiros meses do ano e têm previsão de aumentar até 2029. O cenário impacta o negócio de empresas como a Atlas, que possui 3,9 GW de projetos fotovoltaicos em operação ou construção no país, criando um incentivo para o investimento em BESS e consequente redução do curtailment.
Além do projeto BESS del Desierto, a companhia também opera no Chile os projetos híbridos Estepa I e II, localizados na comuna de María Elena, na região de Antofagasta, que combinam geração solar fotovoltaica com sistemas de armazenamento em baterias. Além disso, a Atlas também desenvolve no país vizinho o projeto Copiapó Solar, que integra uma usina solar fotovoltaica de 357 MWp a um sistema BESS de 320 MW com quatro horas de armazenamento.
Nesse contexto, a Atlas tem interesse em expandir o uso dessa tecnologia também no Brasil, diz o country manager da companhia.
“A companhia acompanha de perto as discussões regulatórias e entende que os sistemas BESS terão um papel cada vez mais estratégico para ampliar a flexibilidade do sistema elétrico brasileiro, apoiar a integração das fontes renováveis e contribuir para maior segurança energética nos horários de maior demanda” disse Bortoluzo.

Imagem: Atlas Renewable Energy
O executivo alerta que a viabilização dos projetos de armazenamento no país depende do avanço regulatório e da criação de sinais econômicos mais claros para o setor.
“Entre os principais pontos estão a definição das regras de acesso e conexão à rede, o avanço da regulamentação sobre como os sistemas BESS serão remunerados pelos serviços prestados ao sistema elétrico, além da estruturação tributária e de incentivos para o segmento. Nesse contexto, também será fundamental a realização dos leilões de capacidade e reserva de potência com participação efetiva das baterias, criando previsibilidade e escala para o desenvolvimento do mercado.”
Também é importante, ele observa, avançar em questões tributárias e de enquadramento regulatório, como a inclusão mais estruturada das baterias em incentivos como o REIDI e a redução de inseguranças relacionadas à cobrança de encargos e à possível bitributação da energia armazenada.
Na última semana, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, voltou a afirmar que o primeiro leilão exclusivo para BESS no Brasil será realizado ainda neste ano, prometendo a publicação da portaria de diretrizes “nos próximos dias”. Já a decisão da Aneel sobre a regulação do acesso de sistemas de armazenamento à rede é esperado para o início de junho, 60 dias após o último pedido de vista do processo.
Na visão da Atlas, o armazenamento deixou de ser uma solução do futuro para se consolidar como uma solução do agora, com exemplos concretos já demonstrando sua capacidade de aumentar a flexibilidade do sistema elétrico, reduzir curtailment e ampliar a segurança energética em mercados com alta penetração de renováveis. Países como Chile, China, Estados Unidos, Austrália e diferentes mercados europeus já vêm acelerando investimentos em BESS justamente porque a tecnologia passou a desempenhar um papel estratégico na integração de fontes intermitentes, no atendimento à ponta de demanda e na maior estabilidade operacional da rede elétrica.
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