Ao longo das últimas duas décadas, o setor solar passou por uma transformação tecnológica acelerada. Assim como os módulos fotovoltaicos evoluíram significativamente em potência e eficiência, os trackers acompanharam essa evolução e deixaram de ser apenas estruturas mecânicas de movimentação para se tornarem sistemas complexos de engenharia, integrando mecânica, automação, eletrônica e inteligência operacional.
No início da indústria fotovoltaica, quando os módulos apresentavam custos elevados e baixa potência, a prioridade era maximizar a geração energética de cada painel instalado. Nesse contexto, os trackers de duplo eixo surgiram como uma solução tecnicamente eficiente, embora operacionalmente complexa e economicamente limitada para aplicações em larga escala. Com a redução expressiva do custo dos módulos e o amadurecimento do mercado utility-scale, a lógica econômica dos projetos mudou. A discussão deixou de estar concentrada exclusivamente na geração e passou a considerar de forma muito mais ampla fatores como CAPEX (abreviação de Capital Expenditure, que significa despesas de capital ou investimento em bens de capital), confiabilidade operacional, facilidade construtiva e custos de operação e manutenção ao longo da vida útil da usina. Foi esse novo cenário que impulsionou a consolidação dos trackers de um eixo e, posteriormente, das arquiteturas monofila independentes, hoje predominantes em grandes projetos ao redor do mundo. Essas soluções passaram a oferecer um equilíbrio mais eficiente entre performance energética, mitigação de riscos operacionais e competitividade econômica.
Ao mesmo tempo, o mercado tornou-se significativamente mais sensível à previsibilidade operacional e à bancabilidade dos projetos. Em um ambiente marcado por pressão sobre PPAs, aumento do custo de capital e busca contínua pela redução do LCOE (Custo Nivelado de Energia – do inglês, Levelized Cost of Energy), confiabilidade deixou de ser apenas um diferencial técnico e passou a ser um fator estratégico para a viabilidade financeira dos empreendimentos. Nesse contexto, os trackers passaram a ocupar um papel central no desempenho global das usinas solares. Questões como disponibilidade operacional, comportamento estrutural sob eventos climáticos extremos, robustez dos sistemas de controle e otimização de terraplanagem passaram a ser analisadas com o mesmo peso da eficiência energética.
Como resposta a essas demandas, o desenvolvimento tecnológico dos trackers passou a se apoiar em três pilares principais. O primeiro é a otimização de CAPEX, com soluções voltadas à redução de fundações, simplificação de montagem e racionalização construtiva, sempre associadas a validações estruturais rigorosas e testes avançados de engenharia de vento. O segundo pilar é a maximização da geração de energia por meio da inteligência embarcada nos sistemas de controle dos trackers. Algoritmos avançados de rastreamento solar, estratégias dinâmicas de posicionamento e inteligência para o backtracking otimizado permitem extrair o máximo ganho bifacial e mitigar o sombreamento mútuo. O terceiro pilar está relacionado à eficiência em O&M. Soluções com arquiteturas mais simples, plataformas de monitoramento remoto e redução nas taxas de falha minimizam intervenções de campo e garantem elevadas taxas de disponibilidade operacional.
Tudo isso converge para uma nova fronteira do setor. Atualmente, eventos climáticos cada vez mais extremos e a escassez de áreas planas vêm impulsionando soluções com alta adaptabilidade topográfica — tecnologias capazes de acompanhar o terreno (terrain-following) sem demandar movimentações massivas de terra. Da mesma forma, o casamento perfeito do tracker com as novas gerações de módulos de ultra-alta potência tornou-se premissa básica de engenharia.
O futuro dos trackers será definido não apenas pela capacidade de aumentar a geração energética, mas principalmente pela habilidade de entregar previsibilidade operacional, adaptabilidade, robustez estrutural e competitividade econômica em projetos cada vez mais desafiadores. No atual estágio de maturidade da indústria solar, eficiência isolada já não é suficiente. O diferencial competitivo passa pela capacidade de transformar engenharia avançada em confiabilidade operacional e retorno financeiro sustentável ao longo de décadas de operação.
*Felipe Tukamoto é especialista em tecnologia de trackers solares e atua como Gerente de Produto para a América Latina e Caribe na TrinaTracker.
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