O armazenamento em baterias é uma tecnologia já consolidada, com um volume que já supera a capacidade instalada de hidrelétricas reversíveis. No entanto, enquanto o mundo deve instalar cerca de 300 GW de armazenamento em 2025, o Brasil deve ultrapassar a marca de 1 GW.
A tecnologia desempenha um papel importante para sistemas elétricos ao redor do mundo, solucionando desafios que o setor elétrico brasileiro também enfrenta. O tema foi debatido em webinar organizado pela associação na última quarta-feira (20/05), enquanto a expectativa pela realização de um leilão dedicado à contratação da tecnologia aumenta, assim como questionamentos em relação a contratação de 16,5 GW de térmicas para fornecer capacidade.
O diretor executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), Fábio Lima, destacou:
“O debate não é BESS versus térmicas, nem renováveis versus segurança energética. A questão é qual a melhor combinação entre segurança, preço, ‘renovabilidade’ e flexibilidade. E para essa pergunta o BESS é certamente parte da resposta.”
Lima destacou ainda que os BESS permitem deslocar a geração renovável para horários de maior demanda, postergar investimentos em reforços de rede e facilitar a integração de novas cargas ao sistema.
Já o presidente da Absae, Markus Vlasits, afirmou que os BESS representam hoje a solução de menor custo global para diversos desafios do sistema elétrico, embora o mercado brasileiro ainda avance em ritmo lento.
Apesar do avanço de sistemas atrás do medidor, Vlasits considera que o volume de 1 GW ainda está muito abaixo do potencial do país e pouco direcionado à resolução de desafios sistêmicos do setor elétrico.
“Precisamos de sinalização de preços, contratação específica e da publicação do marco regulatório. Enquanto isso, o mercado atrás do medidor continua avançando e ajudando a aliviar a carga do sistema.”
Exemplo chileno: serviços ancilares, redução de spread de preços e curtailment
A Atlas Renewable Energy é um exemplo de gerador que passou a prestar serviços para a rede enquanto reduziu o próprio curtailment com a adocção da tecnologia. O country manager da Atlas, Fabio Bortoluzo, apresentou a experiência da companhia no Chile. A empresa possui 3 GW de capacidade renovável no Brasil e opera, desde agosto de 2025, um sistema de armazenamento de 200 MW/800 MWh associado à usina Sol do Deserto, de 244 MWp. O projeto fornece até 200 MW de potência ao sistema durante quatro horas diárias.
Segundo Bortoluzo, o operador chileno registrou disponibilidade superior a 98% quando acionou o ativo, que presta serviços ancilares como controle primário e secundário de frequência. No controle primário, a resposta automática ocorre em menos de 30 segundos.
Ele também afirmou que a entrada do BESS reduziu significativamente o spread de preços da energia no projeto Sol del Desierto. Antes da implantação, os preços variavam de US$ 5 a US$ 12 nos horários de maior geração solar e de US$ 25 a US$ 57 na ponta noturna. Com o armazenamento, o diferencial foi reduzido e o curtailment diminuiu. O executivo acrescentou que o Chile possui atualmente 8 GW de BESS em implantação, incluindo mais 800 MW previstos pela Atlas.
Grid forming e controle de frequência
O CTO da Huawei, Roberto Valer, afirmou que a companhia já comercializou 500 MWh em projetos de armazenamento no Brasil, dos quais 150 MWh estão em operação. Entre os empreendimentos citados estão iniciativas em parceria com a WEG em Fernando de Noronha, com a Matrix Energia e a Pacto Energia, além de projetos com a Aggreko apara atender sistemas isolados no CGPAL.
Valer ressaltou que o ONS já estabeleceu requisitos técnicos para os sistemas PCS, incluindo o fornecimento de inércia sintética para simular o comportamento de máquinas síncronas. Segundo ele, sistemas com tecnologia grid forming podem operar tanto conectados à rede quanto de forma isolada, oferecendo recursos como black start e suporte de inércia.
O executivo citou um caso no Reino Unido em que parques eólicos foram desligados em cascata após um tufão, exigindo atuação dos BESS para regulação de frequência. “Se houvesse grid forming, a recuperação teria sido ainda mais rápida”, afirmou. De acordo com Valer, desde 2023 já existem projetos comerciais com grid forming operando de forma autônoma ou associados a usinas solares e eólicas.
BESS junto às redes de transmissão e distribuição
No Brasil, um caso emblemático demonstra a capacidade do BESS de deslocar o pico de carga para horários de menor consumo e evitar cortes de fornecimento. O gerente de expansão e estudos da ISA Energia Brasil, Renato Guimarães, relembrou a experiência do BESS instalado na subestação de Registro, considerado o primeiro sistema em larga escala do país. O projeto substituiu uma solução tradicional baseada em geração a diesel e foi utilizado para evitar cortes manuais de carga no litoral paulista durante o verão.
Para Guimarães, o caso funciona como um paralelo aos futuros projetos de reserva de capacidade com baterias. “O BESS de reserva de capacidade fará um peak shaving sistêmico, em vez de local, como ocorreu em Registro. Isso mostra, na prática, como o armazenamento resolve problemas de potência”, disse.
O executivo também destacou que a Empresa de Pesquisa Energética já apontou o armazenamento como solução mais viável para a expansão da infraestrutura elétrica em Cruzeiro do Sul, no Acre. A proposta prevê um sistema de 100 MW/200 MWh, com tecnologia grid forming, a ser contratado em leilão previsto para abril de 2027.
Este conteúdo é protegido por direitos autorais e não pode ser reutilizado. Se você deseja cooperar conosco e gostaria de reutilizar parte de nosso conteúdo, por favor entre em contato com: editors@pv-magazine.com.






Ao enviar este formulário, você concorda com a pv magazine usar seus dados para o propósito de publicar seu comentário.
Seus dados pessoais serão apenas exibidos ou transmitidos para terceiros com o propósito de filtrar spam, ou se for necessário para manutenção técnica do website. Qualquer outra transferência a terceiros não acontecerá, a menos que seja justificado com base em regulamentações aplicáveis de proteção de dados ou se a pv magazine for legalmente obrigada a fazê-lo.
Você pode revogar esse consentimento a qualquer momento com efeito para o futuro, em cujo caso seus dados serão apagados imediatamente. Ainda, seus dados podem ser apagados se a pv magazine processou seu pedido ou se o propósito de guardar seus dados for cumprido.
Mais informações em privacidade de dados podem ser encontradas em nossa Política de Proteção de Dados.