Mulheres que tomam decisões estratégicas no setor de energia 

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No setor de energia, as decisões estratégicas não acontecem apenas nas diretorias ou nos conselhos executivos, elas estão presentes em cada etapa dos projetos, na escolha de equipamentos, nas análises regulatórias, nos estudos de conexão, na avaliação de riscos, no planejamento financeiro e até nas definições operacionais que garantem a viabilidade técnica dos empreendimentos. Em um momento em que o Brasil acelera a transição energética e amplia investimentos em geração renovável, eficiência energética e eletromobilidade, cresce também a necessidade de profissionais capazes de integrar diferentes áreas do conhecimento para tomar decisões cada vez mais complexas. Neste cenário, mulheres vêm ocupando posições fundamentais, muitas vezes sem a mesma visibilidade que os cargos tradicionalmente associados à liderança. 

A influência feminina no setor elétrico vai muito além da representatividade; está diretamente ligada à construção de soluções, à análise estratégica e à capacidade de conduzir projetos com visão sistêmica, rigor técnico e foco em sustentabilidade ambiental, econômica, técnica e financeira. 

Embora o setor ainda seja majoritariamente masculino, especialmente nas áreas técnicas e de infraestrutura, cada vez mais mulheres vêm contribuindo de forma decisiva para moldar o futuro da energia no Brasil. 

Saunaray Barra, engenheira eletricista.

A engenheira eletricista Saunaray Barra é um exemplo dessa atuação estratégica de longo prazo. Especialista em energias renováveis, ela acumula 31 anos de experiência no setor de energia e atualmente atua como responsável técnica da área de Engenharia e Energia na Gerência de Educação e Tecnologia do SENAI MG/FIEMG. Sua atuação está diretamente ligada à eficiência energética e à descarbonização industrial brasileira, como interlocutora regional de programas nacionais como o Brasil Mais Produtivo e o PotencializEE, participa de decisões que impactam desde a redução do consumo energético até a competitividade das indústrias. 

Segundo ela, o trabalho desenvolvido no PotencializEE teve um efeito multiplicador importante no setor:

“Fui mentora da metodologia nacional, responsável por capacitar consultores em todo o país para aplicar soluções de eficiência energética nas indústrias. Cada consultoria orientada gera impacto direto na competitividade das empresas, na redução de custos e na transição energética rumo a uma economia de baixo carbono”. 

Saunaray também reforça a importância da presença feminina nos espaços de decisão estratégica. 

“Acredito que o olhar das mulheres nessas decisões estratégicas traz sensibilidade, rigor técnico e visão sistêmica, elementos fundamentais para transformar o setor de energia em um espaço mais inclusivo e inovador.” 

Samile Filgueiras, engenheira eletricista.

A experiência da engenheira eletricista Samile Filgueiras mostra como essas decisões estratégicas acontecem diariamente dentro dos projetos de geração e infraestrutura energética. Sua trajetória começou em projetos de geração solar em larga escala, totalizando cerca de 5,4 GW distribuídos em 38 usinas pelo Brasil. 

Durante esse período, Samile foi a única mulher da área técnica da companhia em que trabalhava, participando diretamente de análises relacionadas à viabilidade dos projetos, conexão à rede elétrica, escolha de equipamentos e gestão de riscos. 

Essa experiência se tornou base para sua atuação atual na área de eletromobilidade, onde participa da estruturação de projetos de infraestrutura de recarga para veículos elétricos. 

“Hoje, meu trabalho envolve desde a análise da capacidade da rede elétrica até a definição do modelo de negócio, garantindo que os projetos sejam tecnicamente viáveis e financeiramente sustentáveis”. 

Ela relata como decisões técnicas têm impacto direto sobre o retorno financeiro e a expansão futura dos projetos. 

“Já participei de decisões onde a escolha da potência instalada, o tipo de carregador e o dimensionamento da infraestrutura impactaram diretamente o retorno do investimento. Em um dos projetos, a identificação antecipada de limitações na rede evitou um erro estratégico que comprometeria a expansão futura.” 

Para Samile, a presença feminina agrega uma visão mais integrada aos projetos energéticos. 

“Trazemos uma visão que conecta técnica, estratégia e sustentabilidade dos projetos. Ainda há um caminho a percorrer em termos de representatividade, mas já estamos ocupando posições que influenciam diretamente o futuro da energia.” 

Aline Pan, professora universitária.

Outro exemplo de influência feminina em decisões estratégicas vem da trajetória de Aline Pan, professora universitária, durante a implantação da usina solar Mulheres da Energia Solar, da UFRGS. O projeto, de 300 kWp, envolveu integração entre diferentes áreas, civil, elétrica e ambiental, além da interação constante com o setor de infraestrutura da universidade. 

Aline destaca que o processo foi especialmente desafiador por acontecer em um ambiente majoritariamente masculino e durante o período da pandemia, o que ampliou a complexidade operacional do projeto, que levou cerca de três anos para ser concluído. 

Apesar das dificuldades, ela relembra que encontrou apoio em outras mulheres ao longo da execução da usina. 

“As mulheres se uniram e conseguiram desenvolver a proposta da usina”, relata. 

Um dos momentos mais críticos aconteceu quando a empresa responsável pela instalação quis inviabilizar a utilização de um dos prédios previstos para receber os módulos solares, enquanto a empresa defendia a exclusão da estrutura, uma engenheira civil da equipe havia emitido laudo afirmando que o prédio suportava a instalação. 

Aline decidiu sustentar tecnicamente essa posição. 

“Comprei a briga para que as placas fossem instaladas no local e, até hoje, cinco anos depois, está tudo bem. Outros laudos já foram feitos e continua tudo bem. Se eu não tivesse acreditado no laudo da engenheira civil, uma parte do projeto teria sido cancelada.” 

O relato evidencia como decisões estratégicas também passam pela confiança técnica, pela colaboração entre equipes e pela capacidade de sustentar posicionamentos em cenários de pressão. 

Mais do que histórias individuais, os relatos dessas profissionais mostram uma transformação silenciosa, mas cada vez mais presente no setor elétrico brasileiro. Mulheres vêm participando ativamente das decisões que definem o desempenho técnico, econômico e sustentável dos projetos de energia no país. 

Dar visibilidade a essas trajetórias é reconhecer que a construção do futuro energético brasileiro também passa pelas análises, escolhas e lideranças femininas que já influenciam diariamente os rumos do setor. 

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