Embora o Brasil ostente uma das matrizes energéticas mais renováveis do planeta, com quase 95% de geração sustentável, convive com um desperdício sistêmico que compromete sua vantagem competitiva global. Em 2025, o custo dessa ineficiência alcançou R$ 6,5 bilhões. De acordo com dados da consultoria Volt Robotics, esse montante refere-se à geração solar e eólica que foi desperdiçada, tecnicamente conhecido como curtailment.
Este volume de eletricidade desperdiçada em um único ano seria suficiente para abastecer milhões de residências por meses. Trata-se de uma falha estrutural grave frente ao aumento do pico de consumo no país. A conta desse descompasso é repartida por todos os consumidores quando usinas térmicas são acionadas para suprir picos de demanda.
Para investidores e gestores, o prejuízo pelas oportunidades perdidas supera amplamente o aporte necessário em inovação e tecnologias de rede. E prejudica a competitividade dos produtos brasileiros no mercado externo, onde a descarbonização se impõe como exigência comercial imperativa.
Mas essa realidade está prestes a mudar. O aguardado Leilão de Reserva de Capacidade, previsto para 2026, é a oportunidade decisiva para reverter esse quadro no país. Ao contratar os primeiros GW de sistemas de armazenamento de energia por baterias, conhecidos pela sigla BESS (Battery Energy Storage Systems), o governo sinaliza a transição para uma infraestrutura de despacho sob demanda.
Vale observar a experiência do Japão, que já alocou mais de 2,5 GW de BESS desde 2023. O Brasil deve refinar suas regras com lições externas. Empresas ainda enfrentam tributação elevada, incertezas em encargos de rede e falta de diretrizes para projetos híbridos. Pontas que precisam ser bem amarradas.
Estudo da Deloitte reforça que a indústria elétrica brasileira enfrenta pressão sem precedentes para entregar capacidade firme em um cenário de consumo acelerado pela eletrificação e inteligência artificial. Nesse contexto, as baterias despontam como ferramentas estratégicas para gerir picos de carga ao mesmo tempo que mitigam os cortes das renováveis, sem sacrificar a acessibilidade de custos ao consumidor final.
Segundo o Plano Decenal da EPE, a inserção desses ativos é fundamental para a confiança no Sistema Interligado Nacional diante da crescente participação de fontes variáveis. A tecnologia converte excedente em segurança real, devolvendo ao operador a flexibilidade para orquestrar cargas sem descartar renováveis ou acionar térmicas fósseis emergencialmente.
Os BESS equilibram o sistema e alteram a dinâmica de mercado via arbitragem de preços. Com eles, torna-se viável guardar o excesso solar diurno para os picos de consumo noturnos, quando a rede enfrenta estresse e as tarifas saltam. Isso proporciona previsibilidade orçamentária à indústria e autonomia para plantas produtivas em regiões de rede saturada.
Segundo o mapeamento da consultoria Greener, o mercado de armazenamento no Brasil pode movimentar R$ 22,5 bilhões até 2030 no Brasil. Esse impulso vem da queda nos custos tecnológicos e da urgência de resiliência. As baterias atuam como reserva virtual de potência e aliviam a malha existente, permitindo que o desenvolvimento industrial avance sem depender exclusivamente de obras de transmissão de grande porte.
O leilão de armazenamento sinaliza um avanço na modernização da nossa infraestrutura energética e exige planejamento meticuloso. Ele definirá se passamos de abundância passiva para uma rede inteligente e responsiva. No novo paradigma global, não basta ter a abundância da geração; o diferencial competitivo reside na capacidade de gerir e despachar essa energia com precisão técnica.
O desafio brasileiro evoluiu. Não se trata mais apenas de gerar energia. Temos o recurso de sobra. Agora, o momento pede diretrizes claras para gestão estratégica. Precisamos garantir uma entrega de energia constante, segura e realmente compatível com as perspectivas de desenvolvimento econômico.
Ty Eldridge é fundador e CEO da Brasol.
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