A sessão de abertura do Congresso do Intersolar Summit Nordeste, em Fortaleza (CE), evidenciou um setor solar em transformação acelerada, pressionado por desafios estruturais e, ao mesmo tempo, impulsionado por novas oportunidades de mercado. As falas do presidente executivo da Absolar, Rodrigo Sauaia, e da CEO da Bright Strategies, Barbara Rubim, convergiram no entendimeto de que o crescimento da energia solar no Brasil entrou em uma nova fase.
Sauaia destacou o protagonismo do Nordeste no avanço da fonte solar, com cerca de 74 GW dos 117 GW de projetos em desenvolvimento no Brasil concentrados na região, diante de uma matriz elétrica nacional de aproximadamente 265 GW. Segundo ele, estados como o Ceará estão no centro das tensões atuais do setor, especialmente devido aos cortes de geração, que têm impactado severamente os empreendimentos.
“A ampliação do mercado livre, que já representa entre 43% e 44% do consumo nacional, abre espaço para a energia solar crescer com novos modelos de negócio, mas exige uma mudança completa de postura das empresas”, afirmou. Ele ressaltou que o setor precisa evoluir de um modelo focado apenas na venda de sistemas para a oferta de soluções energéticas completas, incluindo armazenamento.
Nesse contexto, a Lei 15.269 aparece como um marco que traz avanços como a inclusão do armazenamento no arcabouço legal e incentivos fiscais via REIDI, mas também pontos controversos. Entre eles, Sauaia criticou a atribuição dos custos da contratação de reserva de capacidade de baterias exclusivamente aos geradores, o que pode elevar tarifas e gerar distorções.
“O armazenamento finalmente entrou na lei, mas com ‘pegadinhas’ que ainda precisam ser ajustadas, especialmente no rateio de custos e nos impactos sobre futuros leilões”, disse.
Além disso, o executivo chamou atenção para uma “injustiça regulatória” que condiciona o acesso da energia solar ao REIDI (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura) à inclusão de baterias, o que pode encarecer projetos e limitar sua competitividade.
Geração distribuída: desaceleração natural e barreiras regulatórias
Do lado da geração distribuída, Barbara Rubim destacou que o setor continua crescendo em volume, mas já apresenta sinais claros de desaceleração percentual — um movimento natural de maturação, mas também influenciado por barreiras regulatórias e técnicas.
“A microgeração segue em expansão mais estável, enquanto a minigeração já enfrenta queda, com novos projetos sendo inviabilizados por restrições de conexão e inversão de fluxo”, explicou.
Rubim destacou que parte da percepção de crescimento contínuo do setor desconsidera o fato de que muitos projetos atuais são legados — aprovados antes das restrições mais recentes. Na prática, novos projetos de minigeração já enfrentam um ambiente mais adverso.
Outro ponto crítico é a saturação da rede em determinadas regiões. Segundo a executiva, áreas com alta penetração de geração distribuída já apresentam níveis próximos ou superiores a 20%, patamar em que países internacionais começam a enfrentar problemas estruturais.
“Não significa que as distribuidoras estejam sempre certas ao negar conexões, mas é preciso reconhecer que há limitações físicas. A análise precisa ser técnica, por transformador e subestação”, afirmou.
Ela também destacou que a incerteza regulatória — especialmente em relação às regras futuras de compensação e ao avanço da tarifa horária — tem impactado a decisão dos consumidores, que já arcam com cerca de 60% do fio B e enfrentam dúvidas sobre o payback dos sistemas.
Armazenamento como vetor de crescimento solar
Diante desse cenário, ambos os executivos apontaram o armazenamento de energia como o principal vetor de transformação do setor.
Para Sauaia, o armazenamento será essencial não apenas para mitigar cortes de geração, mas também para viabilizar novos mercados, como data centers, hidrogênio verde e eletrificação industrial.
Já Rubim reforçou o papel das baterias na gestão da demanda e no equilíbrio entre geração e consumo, especialmente em sistemas distribuídos.
“O futuro da geração distribuída será híbrido. As baterias são a nova geração distribuída”, afirmou. “Elas permitem deslocar carga, reduzir custos com tarifas e aumentar a previsibilidade — algo cada vez mais valioso para o consumidor.”
Segundo ela, sistemas híbridos já apresentam payback médio de cerca de cinco anos, combinando economia, backup energético e maior independência da rede. Ainda assim, a adoção enfrenta barreiras, principalmente pela falta de capacitação de integradores.
A mensagem que emerge na sessãp de abertura do evento é clara: o setor solar brasileiro segue em expansão, mas entra em uma fase mais sofisticada, onde regulação, infraestrutura e tecnologia precisarão evoluir de forma coordenada.
Entre cortes de geração, redes saturadas e mudanças regulatórias, a próxima onda de crescimento dependerá menos da simples instalação de painéis e mais da capacidade do setor de integrar soluções — com o armazenamento no centro dessa transformação.
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