Uma indústria de polissilício competitiva na Europa é possível?

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Da pv magazine Global

A produção de polissilício para a indústria fotovoltaica na Europa continua sendo um grande desafio industrial, já que sua fabricação depende de processos de ultra-alta pureza altamente intensivos em energia, que exigem fornecimento de eletricidade confiável e de baixo custo, além de cadeias de suprimento químicas fortemente integradas — vantagens já consolidadas e significativamente mais competitivas em custo em regiões como a China do que no ambiente industrial europeu.

Apesar dessas dificuldades, o CEO da startup holandesa Resilicon, Remco Rijn, acredita que a Europa ainda pode conquistar uma posição competitiva e estrategicamente relevante na produção de polissilício ao aproveitar eletricidade de baixo carbono, avanços em eficiência de processo e um modelo de cadeia de suprimentos mais circular e local. Segundo ele, embora a Europa tenha dificuldade para igualar a estrutura de custos existente na Ásia, pode se diferenciar por meio de métodos de produção mais limpos e maior segurança de suprimento, alinhados aos objetivos mais amplos de transição energética e resiliência industrial do continente.

A Resilicon planeja construir uma fábrica de polissilício na região de Groningen Sea Ports, no nordeste da Holanda. Para o projeto, a empresa já garantiu mais de €14 milhões (US$ 16,3 milhões) em financiamento e apoio do governo holandês.

“Começamos com uma pequena equipe e captamos recursos para realizar o que chamamos de primeira engenharia básica. Agora estamos praticamente no fim dessa fase”, afirmou Rijn à pv magazine. “Nosso objetivo é produzir silício com pureza conhecida como 11N ou 12N, o que significa pureza de 99,999999999% e 99,9999999999%, respectivamente. Vamos utilizar o processo Siemens e adquirir praticamente todos os equipamentos de produção na Europa.”

Diversificação

A Resilicon mira três mercados principais: a indústria de semicondutores, a indústria solar fotovoltaica e o mercado de silano, que também atende aplicações em rápido crescimento, como ânodos para baterias. A energia solar fotovoltaica deve continuar sendo o principal destino do polissilício, como já ocorre atualmente no setor, mas a empresa pretende adotar uma estratégia de produtos mais flexível.

“Ao diversificar nosso portfólio de produtos, conseguimos ajustar a produção entre polissilício, silano e outros gases especiais conforme a demanda do mercado, especialmente para atender melhor a indústria de semicondutores”, disse o consultor estratégico da empresa, Jan Vesseur. “Ainda assim, uma parcela substancial da nossa produção continuará direcionada às aplicações solares fotovoltaicas.”

Atualmente, a startup projeta uma capacidade anual de produção de cerca de 13 mil toneladas, com planos de expansão para aproximadamente 26 mil toneladas. Em termos setoriais, 13 mil toneladas correspondem a cerca de 6 GW a 7 GW de capacidade solar, considerando a regra prática de que são necessárias aproximadamente 2 mil toneladas de polissilício por gigawatt instalado. “Em escala comercial plena, nossa meta final é atingir cerca de 30 mil toneladas métricas de capacidade anual de produção”, acrescentou Vesseur.

Pressão sobre os preços

No momento, os preços do polissilício seguem altamente voláteis, com produtores chineses praticando valores extremamente baixos, muitas vezes operando no prejuízo, em uma situação amplamente vista como insustentável para o mercado. Apesar dos relatos de fechamento de fábricas, o excesso de capacidade permanece significativo e a indústria continua presa a um ciclo de sobreoferta, sem perspectiva clara de resolução no curto prazo. Nesse contexto, competir apenas por preço não é realista nem estrategicamente viável para novos entrantes europeus.

“Em vez de competir puramente por preço, o foco está migrando para segmentos de maior valor agregado”, afirmou Rijn. “A demanda por polissilício premium, de alta qualidade, está crescendo, especialmente para aplicações solares avançadas e para a indústria de semicondutores. É nesse segmento que pretendemos nos posicionar, ao lado de players estabelecidos como a Wacker Chemie. Já estamos em conversas com clientes que buscam especificamente esse material premium.”

Com os preços do polissilício atualmente próximos de US$ 5/kg, Rijn argumenta que esse nível não reflete um equilíbrio sustentável de mercado, mas sim uma distorção causada pela sobrecapacidade global e por estratégias agressivas de precificação que não são sustentáveis no longo prazo.

“Se observarmos os Estados Unidos, onde foram introduzidas tarifas de importação, os preços podem chegar a cerca de US$ 26/kg”, acrescentou. “Isso mostra que até medidas regulatórias relativamente simples podem ajudar a criar condições mais equilibradas de concorrência para as empresas. Com um ambiente regulatório desse tipo, os negócios poderiam operar de forma competitiva em condições comparáveis.”

“Isso também levanta uma questão importante”, continuou ele. “Qual seria o impacto real de um custo de insumo mais elevado, como US$ 26/kg, no preço final dos módulos solares? Do ponto de vista macroeconômico, isso cria uma dinâmica claramente vantajosa para todos. Os consumidores finais podem enfrentar um aumento temporário moderado nos preços dos módulos, mas isso pode ser compensado ao longo do tempo por inovação e ganhos de escala.”

Energia barata

Um elemento central da estratégia da empresa é o uso de eletricidade renovável, especialmente proveniente de parques eólicos offshore no Mar do Norte. A expectativa é de que os preços da energia eólica caiam significativamente ao longo do tempo, à medida que novas capacidades entrem em operação. Isso se torna particularmente relevante a partir de 2029, quando projetos oriundos de leilões e também o fornecimento conectado ao Reino Unido devem ampliar o excedente de eletricidade disponível.

“Atualmente, os custos de energia ainda são um desafio, e a expansão da rede elétrica continua necessária. No entanto, à medida que a expansão da energia eólica e solar avançar, os preços devem cair e criar benefícios estruturais para a eletrificação em diversos setores, incluindo eletrodomésticos”, afirmou Vesseur. “Preços menores de energia podem acelerar a demanda por equipamentos elétricos e ampliar a tendência de eletrificação em residências e na indústria. Isso reforça a lógica de longo prazo de localizar indústrias eletrointensivas próximas a fontes renováveis.”

A mesma dinâmica pode favorecer a relocação industrial para regiões com abundância de energia verde, como a Espanha. “Se tivermos sucesso, nosso projeto poderá ser expandido para outros países europeus no futuro”, disse Rijn. “Nosso conceito conecta a produção de silício de baixo consumo energético a ecossistemas de energia renovável, com o objetivo de produzir silício e silano em larga escala utilizando eletricidade limpa, e essa abordagem pode ser replicada em outros locais.”

Política industrial

Tanto Rijn quanto Vesseur defendem que o estabelecimento de uma indústria de polissilício na Europa depende fundamentalmente de um ambiente regulatório estável e coerente. Na visão deles, o silício deveria ser formalmente reconhecido como um material estrategicamente crítico nas políticas industriais e de matérias-primas da União Europeia.

Eles ressaltam que um ambiente regulatório previsível é essencial para viabilizar financiamento, já que a atual incerteza afasta significativamente investimentos de grande porte. A implementação fragmentada de instrumentos existentes, incluindo mecanismos como o NZIA, é vista como insuficiente para sustentar a confiança dos investidores, levando ao adiamento ou cancelamento de projetos.

“Para tornar a produção europeia viável, precisamos de medidas temporárias de proteção, como tarifas de importação ou instrumentos comerciais equivalentes, capazes de criar condições competitivas mais equilibradas frente aos concorrentes globais de baixo custo”, afirmou Rijn. “Também são necessários apoios públicos direcionados, incluindo subsídios e incentivos do lado da demanda, para atravessar a fase inicial de expansão do mercado.”

Os dois entrevistados também convergem na avaliação de que os formuladores de políticas públicas enfrentam um dilema entre aumentos de custos no curto prazo e soberania industrial no longo prazo. Segundo eles, sem apoio político coordenado, a Europa corre o risco de perder a oportunidade de reconstruir capacidade produtiva em um setor estrategicamente relevante.

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