Entre nuvens e calor: mudanças climáticas redesenham o potencial da energia solar no Brasil

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O ditado popular “dois lados da mesma moeda” sugere que elementos distintos podem ser inseparáveis e, ao mesmo tempo, complementares. Esse conceito também pode ser observado nas mudanças climáticas e seus impactos na geração de energia. Por um lado, há uma tendência de mudança no regime de chuvas e elevação das temperaturas médias globais. Por outro, esses mesmos processos podem influenciar a irradiância na superfície e, portanto, a geração de energia solar em determinadas regiões, devido à variação da nebulosidade.

Dentro desse contexto, há uma tendência de redução da cobertura de nuvens no longo prazo em algumas regiões do Brasil, como o Nordeste, partes do Sudeste e o interior do Sertão. Estados como Goiás, Tocantins e Mato Grosso aparecem entre as áreas potencialmente mais impactadas.

Esse comportamento não é isolado. Ele está associado a mudanças mais amplas na circulação atmosférica global. No cenário de aquecimento global, estudos e simulações climáticas indicam um positive cloud feedback, ou feedback positivo das nuvens. Isso significa que, em um planeta mais aquecido, as nuvens podem responder de forma a amplificar o próprio aquecimento do sistema climático.

Evidências recentes apontam que esse tipo de reorganização já está em curso. Um dos padrões mais consistentes observados é a tendência de redução da cobertura de nuvens nas regiões subtropicais, onde se concentra grande parte do território brasileiro, e aumento em latitudes mais altas, próximas aos polos.

Esse comportamento está associado à expansão da célula de Hadley. Como consequência direta da redução da cobertura de nuvens nas regiões em Brasil, esse processo pode favorecer o potencial de geração solar no país, uma vez que grande parte dos empreendimentos fotovoltaicos está concentrada justamente nessas regiões de alta incidência solar. No médio e longo prazo, isso pode reforçar a atratividade do setor.

As nuvens exercem papel central no balanço de radiação da terra, funcionando como uma espécie de filtro natural da radiação solar. Elas refletem grande parte da radiação solar de volta ao espaço (efeito albedo) e, ao mesmo tempo, absorvem e espalham outra parcela. Nuvens altas, as chamadas cirrus, são mais transparentes à radiação solar, enquanto as nuvens baixas e nuvens de tempestades, resultam em um maior albedo, ou seja, maior capacidade de reflexão.

Assim, quanto maior a cobertura de nuvens, especialmente nuvens baixas e médias, menor a radiação que atinge o solo e, consequentemente, menor a irradiância disponível para a geração solar.

No entanto, o aumento da temperatura ambiente, consequência do aquecimento global, pode reduzir a eficiência dos sistemas fotovoltaicos. Isso porque a temperatura dos módulos solares depende tanto da radiação incidente quanto das condições ambientais, podendo ultrapassar 60 °C em dias de alta insolação.

Além das condições atuais e tendências climáticas, o aproveitamento do potencial solar no Brasil também depende de fatores estruturais do setor elétrico. Nos últimos anos, o país tem enfrentado restrições operativas que levam ao chamado curtailment.

Segundo levantamento da consultoria PowerBay, usinas eólicas e solares no Brasil já deixaram de gerar cerca de 48,7 TWh de energia devido a essas restrições. Apenas em janeiro de 2026, os cortes somaram 2,86 TWh, um aumento de 45% em relação ao mês anterior.

Embora as mudanças climáticas possam ampliar o potencial de geração solar em parte do território brasileiro, a efetiva conversão desse potencial em energia depende não apenas de condições meteorológicas, mas também da capacidade de expansão e modernização da infraestrutura de transmissão elétrica do país.

Por Jorge Rosas, meteorologista da Tempo OK

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