Proibir ingresso de equipamentos da China: será que estamos exagerando novamente?

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Da pv magazine Brasil

Há muito tempo está claro que sistemas fotovoltaicos e outros geradores distribuídos não devem ser monitorados ou controlados abertamente pela internet sem medidas adequadas de segurança. Ao mesmo tempo, esses ativos – assim como grandes consumidores – precisam ser cada vez mais controláveis e, quando necessário, desconectáveis dentro da infraestrutura da rede elétrica para garantir a estabilidade do sistema. Isso é amplamente aceito. No entanto, decisões sobre medidas de cibersegurança e proteção de infraestruturas críticas não devem ser tomadas de forma precipitada, mas sim com base em análises criteriosas e avaliações técnicas objetivas.

Antes disso, porém, vale observar a evolução dos preços dos componentes dos sistemas fotovoltaicos que ainda não estão no radar de defensores da proteção de dados ou de cibercriminosos — ao menos enquanto não houver otimizadores de módulo com capacidade de chaveamento conectados por meio de gateways inseguros.

Os preços dos módulos solares seguem em alta em praticamente todos os segmentos, registrando novos aumentos em maio. Os módulos de alta potência, em especial, vêm sendo mais impactados, já que a capacidade de produção parece limitada. As expectativas de ganhos de eficiência com novos formatos e tecnologias de células podem ter sido otimistas demais. Os clientes exigem cada vez mais módulos próximos de 500 W para aplicações em telhados, mas a oferta continua restrita. Como resultado, a relação entre oferta e demanda segue pressionando os preços, especialmente dos módulos de alta eficiência. Os preços já superaram o nível previsto em janeiro, embora isso tenha ocorrido cerca de um mês depois do esperado.

A questão agora é por quanto tempo essa tendência poderá continuar. A demanda na Alemanha já está em queda em relação ao mês anterior e atualmente se encontra cerca de 12% abaixo do mesmo período do ano passado. Há tempos a Alemanha deixou de ser um fator decisivo na formação dos preços globais da energia solar. A continuidade dessa tendência durante o verão europeu — ou uma eventual reversão — dependerá principalmente da evolução das crises internacionais e do comportamento dos preços da energia. Caso as tensões diminuam, os custos de produção e transporte também poderão cair.

Um fator que poderia inverter a tendência de alta dos preços em um mercado fotovoltaico ainda amplamente dominado por produtos chineses seria a exclusão desses equipamentos de grandes projetos europeus. Uma medida desse tipo provavelmente pressionaria os preços globais para baixo. No entanto, localmente, a falta de alternativas acessíveis tenderia a provocar aumentos significativos nos custos dos equipamentos. Só isso já levanta preocupações importantes e reforça a necessidade de desenvolver cadeias alternativas de fornecimento. Em termos práticos, não se trata de uma proibição total, mas de restringir o acesso a financiamentos da União Europeia para projetos que utilizem inversores de determinados fornecedores.

Isso levanta várias questões, principalmente se essa exclusão representa uma medida preventiva sensata ou uma reação exagerada motivada por aversão ao risco.

Os fabricantes chineses reagiram negativamente, enquanto representantes do governo alertaram para possíveis contramedidas, incluindo o risco de conflitos comerciais. Os críticos argumentam que não há evidências concretas de riscos associados a hardware e software chineses. Embora esses riscos permaneçam em grande parte hipotéticos, a crescente descentralização do fornecimento de energia, distribuído entre milhões de ativos de geração na Europa, significa que potenciais vulnerabilidades não podem ser simplesmente ignoradas. O risco de interrupções em larga escala — sejam internas ou externas — precisa ser considerado, assim como o desenvolvimento de estratégias adequadas de defesa.

Nesse contexto, a Diretiva NIS-2 da União Europeia também ganha relevância. Ela estabelece requisitos de cibersegurança para empresas e instituições de setores críticos, incluindo obrigações relacionadas à gestão de riscos, padrões de segurança e notificação de incidentes. Na Alemanha, mais de 1.000 operadores de infraestrutura crítica (KRITIS) já estão registrados. Com a implementação da NIS-2, espera-se que esse número ultrapasse 30 mil entidades, ampliando as exigências regulatórias para uma parcela significativa da economia alemã, e não apenas para o setor de energia renovável.

A Associação Alemã das Indústrias de Energia e Água (BDEW) defende, portanto, um fortalecimento substancial da resiliência e da proteção das infraestruturas críticas. No entanto, é questionável se a exclusão generalizada de equipamentos não europeus é realmente um meio adequado para atingir esse objetivo. A abordagem da União Europeia parece refletir, em vez disso, uma política de viés clientelista. Sob pressão das concessionárias tradicionais de energia, há o risco de reforçar estruturas já estabelecidas e limitar a expansão de soluções descentralizadas e economicamente eficientes. Além disso, uma medida desse tipo ofereceria, na melhor das hipóteses, apenas proteção limitada à indústria fotovoltaica europeia, que continua dependente de componentes chineses.

Medidas tão abrangentes correm o risco de parecer reativas, motivadas pela falta de disposição em lidar com toda a complexidade do tema e, por isso, tendem a ser contraproducentes. Afinal, componentes capazes de permitir comunicações externas maliciosas poderiam igualmente estar incorporados em inversores europeus. Da mesma forma, softwares alemães de gestão de energia não são inerentemente mais seguros contra ataques cibernéticos do que seus equivalentes chineses.

O que realmente se faz necessário é o desenvolvimento e a aplicação consistente de padrões universais de software para os sistemas relevantes, juntamente com exigências correspondentes de documentação e protocolos adicionais de certificação para componentes de hardware controláveis. Em grande medida, esses padrões já existem e poderiam ser aplicados de forma abrangente sem excluir produtos com base em sua origem geográfica.

Sobre o autor:  Martin Schachinger estudou engenharia elétrica e atua na área de energia fotovoltaica e renováveis ​​há quase 30 anos. Em 2004, fundou a plataforma de negociação online pvXchange.com. A empresa comercializa componentes padrão para novas instalações, além de módulos solares e inversores que não são mais fabricados.

Os pontos de vista e opiniões expressos neste artigo são dos próprios autores, e não refletem necessariamente os defendidos pela pv magazine.

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