Variabilidade regional marca o desempenho da geração solar no 1º trimestre de 2026

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O antropólogo Darcy Ribeiro definia o Brasil como uma “Nova Roma”, uma civilização marcada pela diversidade e pela combinação de diferentes matrizes culturais. Essa heterogeneidade também pode ser observada sob outra perspectiva menos explorada, mas igualmente relevante para o setor elétrico. A forma como a irradiação solar se distribui ao longo do território segue essa mesma lógica de contrastes.

No primeiro trimestre de 2026, o desempenho da geração solar foi, em termos gerais, favorável no Brasil. Ainda assim, uma análise mais detalhada mostra que esse resultado esteve longe de ser homogêneo e reforça um ponto central para o setor. A variabilidade regional segue sendo um dos principais fatores de risco e também de oportunidade para a energia solar no país.

No consolidado do período, regiões como Centro-Oeste e Norte, além de parte do Sul e do interior do Sudeste, registraram predominância de condições acima da média de irradiância. Em contrapartida, o leste do Sudeste, especialmente Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, além de segmentos do Nordeste, apresentou episódios recorrentes de redução de irradiância. Esses movimentos estiveram associados à maior presença de nebulosidade, frentes frias e transporte de umidade oceânica.

Em janeiro, a dinâmica atmosférica não apresentou favorecimento para persistência de sistemas meteorológicos de grande escala na maior parte do Brasil, favorecendo irradiância predominantemente acima da média.

Houve a presença de quatro frentes frias sobre o território brasileiro e dois episódios de Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que favoreceram a formação de nebulosidade especialmente entre Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e centro-leste da Bahia, áreas onde as anomalias de irradiância solar foram mais negativas no fechamento mensal.

Fora desse eixo, o cenário foi marcado por precipitações mais esparsas e irregulares, o que favoreceu o desempenho da geração solar no Sul, Centro-Oeste e grande parte do Nordeste. No norte da região Nordeste, a posição mais ao norte da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) também exerceu papel positivo ao reduzir a persistência de nebulosidade típica do período.

Em fevereiro, o padrão atmosférico passou a ser mais influenciado pelo transporte de umidade do oceano e pela atuação de sistemas transientes ao longo da costa leste do Brasil, como frentes frias e baixas pressões, sobretudo na segunda metade do mês. Esse comportamento ampliou a presença de nebulosidade em áreas mais extensas do Sudeste e do Nordeste, resultando em irradiância entre média e abaixo da média em Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia.

Embora sem a formação de eventos generalizados de chuva acima da média, essas condições foram suficientes para manter maior intermitência da radiação solar em diversos momentos. Em contrapartida, Sul, parte do Centro-Oeste e amplas áreas do Norte registraram desempenho mais favorável.

Março manteve essa tendência, mas com distribuição mais equilibrada ao longo do país. Enquanto áreas do centro-norte de Minas Gerais, Espírito Santo, sul da Bahia e parte do sertão nordestino continuaram registrando irradiância entre média e abaixo da média, uma ampla faixa do território, incluindo Centro-Oeste, Norte e grande parte do Sul e Sudeste, apresentou condições acima da média. Esse cenário esteve associado a um padrão atmosférico menos favorável à formação persistente de nebulosidade. Em sentido oposto, o Rio Grande do Sul registrou redução de irradiância, influenciado pela maior frequência de sistemas transientes, como frentes frias e ciclones.

A variabilidade regional da irradiância impacta não apenas a geração efetiva dos ativos solares, mas também a previsibilidade de produção, a gestão de portfólio e a exposição ao mercado de curto prazo. Em um ambiente cada vez mais orientado por eficiência e gestão de risco, essas diferenças deixam de ser um detalhe técnico e passam a influenciar decisões estratégicas.

Nesse contexto, o uso de dados meteorológicos ganha protagonismo. Modelos que utilizam Inteligência artificial (IA), baseados em séries históricas, dados em tempo real, além de dados observáveis tornam-se fundamentais para reduzir incertezas, otimizar a operação dos ativos e embasar decisões comerciais mais eficientes.

O trimestre também reforça a importância da diversificação geográfica dos ativos e da integração com soluções complementares, como o armazenamento de energia, como forma de mitigar intermitências e aumentar a confiabilidade da entrega.

Em um setor cada vez mais sofisticado, a capacidade de interpretar as dinâmicas regionais, com apoio de dados meteorológicos e visão integrada de operação, será determinante para capturar valor e sustentar crescimento no mercado brasileiro de energia solar.

Autor: Paulo Lombardi, meteorologista da Tempo OK

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