Retrospectiva 2025: Limitações da rede impulsionam projetos grid zero

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O avanço robusto da geração distribuída (GD) solar no Brasil — que já ultrapassou 40 GW de capacidade instalada — tem gerado efeitos colaterais relevantes no funcionamento das redes elétricas e impulsionado novas abordagens de projeto no setor solar fotovoltaico. Enquanto o segmento cresce ano a ano, a capacidade limitada de integração da energia gerada na infraestrutura de distribuição está levando integradores e consumidores a repensarem os desenhos tradicionais de sistemas on-grid, sobretudo priorizando soluções que não injetam energia na rede pública.

O que é “grid zero” e por que ele surge

O modelo conhecido no mercado como sistema grid zero propõe que a energia solar gerada seja consumida imediatamente pelo cliente, sem excedentes enviados à rede elétrica da concessionária. Essa configuração evita a injeção de energia na rede, atendendo à demanda local com a geração própria e eliminando a necessidade de adesão ao Sistema de Compensação de Energia Elétrica (SCEE), tradicional no modelo de GD no Brasil.

Esse modelo tem ganhado espaço sobretudo em regiões onde as distribuidoras limitam ou restringem a injeção de energia devido à falta de capacidade de atendimento da rede às crescentes cargas fotovoltaicas — um fenômeno que tem se intensificado em estados como Minas Gerais e outros polos de alta penetração solar.

Com a disseminação dos sistemas solares conectados à rede, muitas concessionárias têm adotado mecanismos para controlar ou restringir a conexão de projetos que possam injetar excedentes. Além disso, o Operador Nacional do Sistema Elétrico tem defendido a ampliação do seu  relacionamento com as distribuidoras e uma maior capacidade de gerenciamento dessas cargas distribuídas. A preocupação é que a reversão de fluxo e a sobrecarga pontual comprometam a estabilidade e a qualidade do serviço das redes de distribuição. Neste contexto, a discussão sobre a necessidade de Operadores do Sistema de Distribuição se intensificou ao longo de 2025.

Em novembro, a Aneel autorizou as concessionárias a cortar a injeção de energia da rede de usinas do Tipo III, que não são operadas pelo ONS e são conectadas direto na rede de distribuição, embora ainda não incluam a micro e minigeração distribuída.

A resposta de mercado a essas limitações não tem sido apenas técnica, mas estratégica. Integradores estão dimensionando projetos para que a energia gerada seja consumida no próprio ponto de consumo, evitando a necessidade de injeção no momento de pico de geração e, assim, minimizando riscos de restrições na operação dos sistemas por parte das distribuidoras.

Regulação e incentivos: o papel da Lei 14.300

A Lei 14.300/2022, que revisa o marco regulatório da GD no Brasil, introduziu um novo regime para o setor e continuou incentivando modalidades como micro e minigeração distribuída com regras específicas para net metering e compensação de energia.

No entanto, o desenho de mercado que hoje se consolida — com projetos planejados para não injetar energia na rede pública — reforça a necessidade de modelos alternativos ao sistema tradicional de GD.  Embora a lógica por trás do grid zero seja atrativa, existem desafios técnicos e comerciais a serem superados:

  • Dimensionamento preciso — Especialistas alertam para a importância de considerar simultaneidade entre geração e consumo ao planejar estes sistemas. Um cálculo inadequado pode resultar em energia gerada que não será utilizada ou armazenada, diminuindo a eficiência do investimento.
  • Regulação e homologação — Apesar de ser uma alternativa viável, a ausência de um padrão regulatório claro por parte das distribuidoras sobre a homologação de sistemas grid zero torna o processo menos previsível e mais burocrático em algumas localidades. Ainda é necessária comunicação e alinhamento técnico com as concessionárias para assegurar que a operação do sistema não cause distúrbios à rede pública.
  • Aplicação prática — Para clientes industriais ou agrícolas, onde o consumo é constante ao longo do dia, o grid zero pode ser vantajoso e econômico. Para residências com baixa atividade durante o período de geração solar, a solução pode demandar complementos como baterias inteligentes para maximizar o uso da energia produzida.

A lei 15.269, resultante da MP 1.304, publicada em novembro, também reforça o desenho de mercado mais favorável para projetos com geração junto à carga. A nova legislação, entre outros pontos, reduz benefícios tarifários para projetos de geração renovável centralizados e define novas regras da autoprodução, criando um ambiente mais competitivo para soluções que dispensam o uso da rede.

O crescimento significativo da GD no Brasil revela um setor em transformação — que enfrenta desafios operacionais e regulatórios à medida que a participação da energia solar aumenta. O modelo grid zero surge não apenas como alternativa técnica, mas como uma resposta pragmática às limitações estruturais das redes elétricas, oferecendo caminhos para que consumidores e integradores mantenham a expansão da geração local de forma estável, econômica e alinhada às novas regras do setor.

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