Baterias junto à carga em GD: regulação e inovação impulsionam novas oportunidades no setor

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O mercado de baterias para geração distribuída no Brasil está em transformação e para endereçar as oportunidades e desafios para 2026, a pv magazine Brasil publica o especial Aplicações de baterias junto à carga em GD. A série vai explorar como as baterias já trazem benefícios para consumidores no Brasil, embora seu avanço ainda dependa de redução de custos e de uma regulação mais clara, especialmente pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

“Com regras adequadas, o mercado pode crescer e contribuir para a modernização do setor elétrico brasileiro”, disse à reportagem o presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar), Rodrigo Sauaia.

Aplicações vantajosas e benefícios para consumidores

O executivo destaca que “no Brasil, já existem aplicações que são técnica e economicamente vantajosas para determinados perfis de consumidores. Outras ainda dependem de redução adicional de custo dos equipamentos ou de evolução regulatória.” Entre as aplicações já viáveis, ele cita o peak shaving e a gestão da demanda, especialmente para consumidores em média tensão e tarifas horo-sazonais, que podem “reduzir o montante de uso da rede contratado nos horários de ponta, o consumo de energia nos horários mais caros e evitar ultrapassagens de demanda contratada (multas)”.

O uso de baterias para substituir ou reduzir o uso de geradores a diesel também é destacado. “As baterias apresentam resposta instantânea, menor custo operacional, ausência de gastos com combustível e menor manutenção, permitindo que o gerador diesel seja desativado ou relegado a um papel de contingência para eventos de longa duração. Ainda existe o benefício da redução de emissões locais.”

Para consumidores com alto custo de interrupção, o executivo ressalta que o uso de baterias como solução de backup elétrico junto à carga visa aumentar a resiliência do suprimento elétrico, garantindo continuidade da alimentação em caso de falhas da rede, com qualidade de energia superior à de geradores a diesel e tempos de resposta muito menores.

Limitações técnicas, econômicas e regulatórias

O presidente executivo da Absolar, Rodrigo Sauaia.

Imagem: Absolar

Apesar dos avanços, Sauaia aponta desafios técnicos. “A expansão do mercado enfrenta desafios relacionados à maior complexidade de projeto e integração dos sistemas BESS com a geração distribuída, que exige soluções mais avançadas de controle, proteção, supervisão e gerenciamento de energia. Somam-se a isso questões associadas à segurança, padronização e espaço físico, especialmente em ambientes urbanos e residenciais, onde restrições de ventilação, instalação, risco térmico e ausência de normas técnicas nacionais plenamente consolidadas aumentam custos, ampliam prazos de implantação e reduzem o número de integradores capacitados, funcionando como barreiras técnicas indiretas à massificação da tecnologia, principalmente nesta fase inicial da dispersão do uso da tecnologia”.

No aspecto econômico, ele afirma que a principal limitação econômica à expansão das baterias no Brasil decorre do investimento inicial ainda elevado dos sistemas de armazenamento, especialmente em aplicações de baixa tensão, em função da elevada carga tributária sobre equipamentos importados, da escala ainda reduzida do mercado nacional e dos custos de integração, engenharia e certificação, o que faz com que, para muitos consumidores, o uso da bateria não seja economicamente atrativo. “Adicionalmente, a impossibilidade de obtenção de receitas adicionais, como por meio de arbitragem de preços de energia e prestação de serviços ancilares, também reduz as possibilidades de remuneração para a baixa tensão”.

Sobre as limitações regulatórias, Sauaia observa que as limitações regulatórias se concentram principalmente na ausência de um marco relatório adequado e robusto para a tecnologia, que pode ser destravada com a CP 39 e a implementação infralegal dos avanços da Lei 15.269/2025. “Ainda há de haver a possibilidade de que as baterias atrás do medidor sejam remuneradas adequadamente pelos serviços que podem prestar ao sistema elétrico, como arbitragem de preços, flexibilidade, resposta rápida e alívio das redes de distribuição”.

O papel da regulação e perspectivas de crescimento

A respeito da regulação, o presidente da Absolar afirma que a Consulta Pública nº 39/2023 pode contribuir de forma decisiva para destravar e acelerar o mercado de baterias junto à carga, associadas ou não à geração distribuída, ao estabelecer um marco regulatório mais claro, coerente e previsível para o armazenamento de energia, reduzindo incertezas jurídicas e custos que hoje inibem investimentos nesse segmento.

“A definição de regras adequadas de contratação do uso da rede (MUST/MUSD) para o uso da tecnologia, mitigando o risco de dupla tarifação e a incidência inadequada de encargos, e a regulamentação para o empilhamento de aplicações e receitas, permitindo que um mesmo sistema seja utilizado de forma mais eficiente para gestão da demanda, autoconsumo, backup e mitigação de restrições técnicas da rede” são fundamentais para o avanço do setor”.

Volume de instalações e projeções para 2026

Sobre o volume atual de instalações, Sauaia esclarece que não existe uma base de dados oficial atualizada que consolide o volume total de instalações com baterias junto a carga ou operando de forma autônoma no Brasil. A ausência de comando regulatório de registro específico de baterias atrás do medidor nos sistemas cadastrais da Aneel prejudica a consolidação de dados detalhados.

De acordo com Sauaia, não há previsão de expansão massiva do armazenamento atrás do medidor para 2026 pelas estimativas do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2035 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o crescimento deverá ser gradual e seletivo, concentrado em nichos com viabilidade econômica já comprovada e à evolução regulatória em curso.

“Para a Absolar e para o mercado, as projeções da EPE até 2035 são excessivamente conservadoras, havendo espaço para um crescimento mais robusto das baterias no Brasil, especialmente se regras favoráveis forem implementadas. Semelhante situação foi vivenciada no setor solar para o qual a EPE subestimou recorrentemente o avanço da fonte no Brasil”.

Novos modelos de negócio e perspectivas para o setor

A expectativa para novos modelos de negócio envolvendo armazenamento na geração distribuída (GD) no Brasil é que ocorra uma diversificação progressiva, à medida que o mercado evolui para a utilização de modelos integrados de gestão energética. Este avanço deve ser impulsionado pela queda de custos das baterias, pela maturidade tecnológica e, sobretudo, pela evolução regulatória. Sauaia revela que “é esperado que a consolidação de modelos baseados no empilhamento de aplicações e receitas, nos quais um mesmo sistema de baterias possa gerar valor simultaneamente por meio de peak shaving, backup, aumento do autoconsumo solar e mitigação de restrições técnicas de conexão, melhorando a taxa de utilização dos ativos e reduzindo o payback.”

Com maior clareza regulatória, espera-se a integração do armazenamento à lógica de mercados de resposta da demanda e serviços ancilares, conferindo as baterias na GD um papel estrutural na transição energética e na modernização do sistema elétrico.

Por fim o executivo afirma que “existe espaço também para um modelo baseado na agregação de cargas e usinas de geração, as chamadas Virtual Power Plants (VPPs), a exemplo de países como Estados Unidos e Reino Unido.  Esses usos potencializam os serviços de flexibilidade e de otimização do sistema, que podem contribuir para uma maior resiliência da matriz, autonomia dos consumidores e otimização do sistema elétrico”.

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