Os impactos do desastre climático no Rio Grande do Sul sobre sistemas fotovoltaicos e a mobilização do setor para ajudar as vítimas

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Em 21 de abril, o instituto de meteorologia MetSul, emitiu alertas sobre “sucessivos episódios de chuva no estado do Rio Grande do Sul, com altos volumes em algumas áreas”. Seis dias depois, em 27 de abril, Canoas, Novo Hamburgo e Porto Alegre registram os primeiros alagamentos. Em poucos dias, o lago Guaíba, principal corpo hídrico da região, atingiu 5,30 metros, 3,30 metros acima da cota de inundação. O recorde anterior de cheia no estado foi registrado em 1941, uma marca histórica, quando o Guaíba atingiu 4,77 metros.

Segundo a Defesa Civil, até a manhã do dia 10 de maio, 435 municípios (ou quase 90% do estado do Rio Grande do Sul) haviam sido atingidos pela enchente.

O desastre no Rio Grande do Sul já é uma das dez tragédias ambientais com o maior número de mortes do país, atingindo 136 vítimas, enquanto 141 ainda continuam desaparecidas. Com 326 mil clientes sem energia no estado, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), ainda não é possível calcular os prejuízos das usinas fotovoltaicas submersas ou afetadas. Ainda devido às inundações, segue desligada a subestação Nova Santa Rita, que deixou fora de operação 16 importantes linhas de transmissão. Isso fragiliza a conexão entre os sistemas de transmissão e deixa os sistemas remanescentes sobrecarregados e mais suscetíveis a novas contingências que podem levar a cortes de cargas.

Municípios com fornecimento de energia interrompido. Fonte: Aneel.

Mudança climática tornou chuvas no RS mais intensas

As mudanças climáticas provocadas pela ação humana – em especial a emissão de gases do efeito estufa liberados pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento – tornaram as chuvas no Rio Grande do Sul mais intensas, concluiu um “estudo rápido de atribuição” realizado por pesquisadores do ClimaMeter divulgado na última sexta-feira, dia 10/05. Segundo o estudo, as chuvas ficaram 15% mais intensas devido às mudanças climáticas.

Em março, estudo de atribuição do ClimaMeter apontou que as atuais ondas de calor estão 1°C mais quentes do que no passado. “Os achados do ClimaMeter destacam que as inundações no Rio Grande do Sul foram intensificadas pela queima de combustíveis fósseis, não pelo El Niño”, afirma o pesquisador do Instituto Pierre-Simon Laplace de Ciências do Clima e um dos autores do estudo, Davide Faranda.

Faranda destaca que de forma geral essas inundações afetam muito mais comunidades vulneráveis, as quais são injustamente sobrecarregadas pelas consequências da crise do clima, mesmo tendo uma pequena parcela de responsabilidade pelas mudanças climáticas. O pesquisador ainda aponta que existem maneiras de mitigar esses riscos, como a redução imediata das emissões de combustíveis fósseis.

Nesse cenário, a mesma energia solar que é uma alternativa às fontes de energia que aumentam as emissões, também foi vítima do desastre.

Sistema de geração distribuída alagado no RS.

Imagem: Soluções Pedroso

Mobilização para mitigar o sofrimento

Por todo o país, há mobilização de empresas, associações, entidades representativas, profissionais liberais e grupos de incansáveis voluntários em prol das vítimas, além das iniciativas do poder público em todas as esferas. São incontáveis registros de doações de equipamentos, mantimentos e recursos financeiros destinados aos gaúchos.

O setor solar também vem promovendo ações para amenizar os impactos causados pela enchente no estado. A pv magazine entrevistou algumas empresas integradoras de sistemas de energia solar do estado que têm em comum a mobilização para ajudar aqueles que perderam tudo, enquanto tentam calcular as perdas de seus clientes.

Sensibilizado pelo sofrimento que seus conterrâneos vêm passando, o CEO da Soluções Pedroso, empresa especializada na instalação de sistemas solares, conseguiu arrecadar ajuda financeira para as vítimas. “Nunca imaginei uma tragédia pior do que vimos na pandemia. Nesse cenário ‘apocalíptico’, não consegui ficar parado. Deixei meu filho nascido há 30 dias em casa e fui para a rua ajudar quem precisava, arrecadando dinheiro, fazendo as compras e distribuindo ajuda junto às equipes de resgate e barqueiros. Assim como a enxurrada, sei que o exemplo arrasta”, conta o eletrotécnico emocionado, cansado física e emocionalmente diante da tragédia.

Profissionais do setor solar se mobilizam para ajudar vítimas de enchente sem precedentes no RS.

Mara Schwengber, coordenadora da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) no Rio Grande do Sul e CEO da Solled Energia, que participa da Associação Brasileira Grupo G5 Solar, um grupo de 10 empresas que aposta no desenvolvimento do mercado fotovoltaico no país, também organizou uma “vaquinha” para ajudar as vítimas da enchente. “Como o G5 é espalhado por todo o país, nos primeiros dias conseguimos arrecadar recurso financeiro para comprar itens como água, comida, bolacha, material de limpeza e higiene básica. Na sequência, conseguimos a participação de mais pessoas e já estamos organizando a doação de 100 colchões de casal junto a empresas locais, que precisam de alguma maneira retomar as atividades, além de um lote grande de cobertores que está vindo de São Paulo e será destinado às vítimas”.

Schwengber explica que a Absolar ainda não consegue contabilizar os danos aos sistemas fotovoltaicos no estado porque as vítimas são prioridade e porque a água precisa baixar para acessar esses locais. Soma-se a isso, a falta de comunicação. “As vidas são as prioridades nesse momento e precisamos fazer todo o possível para minimizar o sofrimento”, explica.

Impactos sobre os sistemas solares fotovoltaicos no RS

Segundo recente mapeamento da Absolar, o Rio Grande do Sul está entre os três estados brasileiros com maior potência instalada de energia solar na geração própria em telhados e pequenos terrenos, com 2,7 gigawatts (GW). O território gaúcho responde sozinho por 9,6% da potência instalada no país, com mais de 302 mil conexões operacionais, espalhadas por 497 municípios. A entidade emitiu um comunicado orientando os consumidores a redobrarem os cuidados com equipamentos elétricos para evitar acidentes, choques ou perdas.

Comunicado da ABSOLAR sobre a segurança dos equipamentos fotovoltaicos atingidos.

Se ainda não é possível mensurar os impactos dos sistemas fotovoltaicos de forma coletiva no estado, a Yes Energia, empresa integradora gaúcha com sede em Porto Alegre, capital do RS, simulou digitalmente as áreas afetadas e realizou o cruzamento com seus sistemas fotovoltaicos instalados.

O coordenador de projetos e administrador de base de dados da Yes, Leandro Pandolfo, explica que iniciou o desenvolvimento do ‘Mapa para Apontamento de Clientes Afetados pelos Alagamentos’ com base no mapeamento preliminar disponibilizado pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas – IPH. “Com as áreas alagadas mapeadas, aplicamos a camada contendo as localizações exatas dos sistemas instalados pela Yes Energia. Assim identificamos os afetados por local e a tecnologia instalada. Com os clientes filtrados por fabricante e tecnologia, iniciamos o processo de verificação de alertas via sistema próprio chamado Yes Assist e plataforma de monitoramento dedicada do fabricante”, explica.

Em azul, as áreas atingidas pela água e a distribuição dos sistemas fotovoltaicos da Yes Energia

 Das 1.900 instalações da Yes Energia no estado, 400 clientes estão em áreas de alagamento e, até o momento, 83 usinas estão inativas e já confirmaram a paralização dos sistemas.

Cliente da Yes Energia e os impactos das águas nas instalações.

Imagem: Divulgação Yes Energia

“Vimos o estrago acontecer dentro de casa. Os atingidos pela enchente são nossos amigos, colegas e clientes. Diante desses fatos, nossas equipes comercial e administrativa passaram a atuar de forma remota, enquanto as equipes técnicas foram direcionadas principalmente às emergências. Montamos um plano de ação, que consiste em três etapas-chave: avaliação e coleta de informações; acionamento dos parceiros comerciais; e recuperação das instalações e infraestruturas”, conta o co-fundador da Yes Energia, Tiago Fernandes.

Antes e depois do Aeroporto Salgado Filho

Imagem: Divulgação Yes Energia

Um dos clientes da empresa é o Aeroporto Salgado Filho, localizado no Bairro São João, em uma das saídas de Porto Alegre. Parte do aeroporto está com inundação que atinge 2,5 m de altura. A ordem dos técnicos é de cautela para analisar não só os equipamentos como também a estrutura da pista depois que a água baixar completamente. Técnicos da Infraero avaliam como inédita a inundação do aeroporto Salgado Filho, fato sem precedentes em aeroportos internacionais no Brasil. O aeroporto está fechado por tempo indeterminado, com todas as operações suspensas. A Fraport, administradora do aeroporto, divulgou uma nota em que coloca o dia 30 deste mês como data final da suspensão das operações. “Só um pequeno trecho da pista de pouso e decolagem ficou fora da água e o restante virou lago. É uma visão bem chocante”, explica o diretor. Fernandes informa que já ofereceu à Fraport suporte para ajudar na recuperação de toda a parte elétrica do aeroporto e do sistema fotovoltaico, assim que possível.

“Durante uma inundação, todos os inversores ativam uma tecnologia chamada de “anti-ilhamento”, que cessa a produção de energia durante desabastecimento da rede elétrica, impedindo que a energia solar seja injetada na rede elétrica danificada”, de acordo com o gerente de engenharia da Yes Energia, Pedro Spohr. “Nossa base de clientes é formada, principalmente, por sistemas string convencionais e sistemas SolarEdge”, ele adiciona.

No entanto, há uma grande diferença em relação à segurança entre esses dois modelos, aponta o engenheiro. “Os módulos estarão energizados enquanto houver sol, mesmo com o sistema não produzindo energia. Em sistemas string, os circuitos vindos do telhado estarão com tensão elétrica elevada, gerando riscos nessas situações. Já em sistemas SolarEdge, há otimizadores conectados aos módulos, que possuem um recurso chamado Rapid Shutdown, um mecanismo de desligamento rápido que reduz os níveis de tensão a quase zero, diminuindo o potencial risco à área inundada”.

Mesmo com a segurança reforçada dos inversores equipados com a tecnologia, o diretor comercial explica que grande parte dos clientes não contam com seguro para os sistemas de energia solar. “Estamos em contato contínuo com os fabricantes para que eles se mobilizem para avaliar os equipamentos danificados, mas caso seja necessário, vamos recolher toda essa base de equipamentos e enviar para uma empresa especializada em eletrônica para tentar recuperar os inversores. Só que isso sendo feito, a gente sabe que perde as garantias futuras”, explica.

Por fim, Fernandes explica que a empresa fará esforços para ajudar a revisar os quadros de distribuição que não têm condições de serem energizados, mesmo antes de religar os sistemas fotovoltaicos. “É preciso levar em consideração que além dos inversores, as string boxes, as caixa CC e os quadros de distribuição dos clientes também foram afetados. Temos um grande trabalho pela frente, mas estou certo de que o setor solar se mobilizará”.

Afinal, o seguro solar cobre danos relacionados a enchentes/inundações?

Por conta do alto nível da água em algumas cidades e bairros, ainda não é possível calcular as perdas de equipamentos, principalmente das usinas que não contam com seguro solar e, mesmo as que contam, podem não reaver o valor dos equipamentos danificados.

Mas esse não é o caso da Elétron Solar, empresa de Curitiba (PR) e especializada em seguro solar. De acordo com o CEO da empresa, Mauro Filho, antes de contratar, é preciso ter consciência das coberturas que o seguro solar oferece, pois na maioria dos casos, esses incidentes não estão contemplados”.

Esses incidentes estão cobertos nas apólices da Elétron que, até o momento, recebeu oito notificações de sinistro de regiões onde a água já baixou. O executivo explica que durante as enchentes, o inversor é o item mais afetado em um sistema solar. Na maioria das vezes, os módulos são mais resistentes à água pois ficam ao ar livre, mas muitos também foram avariados por materiais arrastados pela enxurrada.

“Pelas fotos que recebemos essa semana, é possível verificar que essas primeiras residências que tiveram seus sistemas afetados, são casas simples, onde as famílias perderam tudo o que tinham, documentos pessoais, móveis, eletrodomésticos, roupas, e às vezes a própria casa levada pela enxurrada. E é aí que entra o papel social do seguro no qual as famílias podem investir o valor do prêmio – que no caso dos inversores gira em torno de R$ 10 mil reais – para sobreviver. Como o prêmio é em dinheiro, esses clientes podem comprar o mais básico para levar o mínimo de conforto para a família, como colchões fogão, geladeira e um botijão de gás. Neste caso, a compra de um novo inversor fica para depois, já que o objetivo é sobreviver”, lamenta o CEO, que estima que esses oito primeiros sinistros sejam apenas a “ponta do iceberg”, já que muitas áreas ainda estão embaixo d’água.

Marca do nível da água em um inversor instalado pela Geração Própria

Imagem: Geração Própria

O CEO da Geração Própria, Jean Soares, corrobora a estimativa de Mauro Filho e explica que dos 1.500 sistemas instalados no estado – concentrados principalmente na região do Vale do Taquari, Região Metropolitana e Serra Gaúcha, e que foram bastante atingidos – são 30 os atendimentos de seguros já em andamento. “Acredito que ainda teremos um número maior de clientes afetados, que não estamos conseguindo contatar pela falta de rede de telefonia e internet. Mas sabemos que, em alguns casos, a usina simplesmente sumiu. Tudo foi levado embora pela água, casa, usina, tudo. Uma tragédia sem precedentes”, explica.

Para os players do setor fotovoltaico global e leitores das plataformas da pv magazine, a cobertura da tragédia no Rio Grande do Sul traz alguns importantes ensinamentos, tais como a necessidade da instalação de equipamentos mais seguros diante dos eventos climáticos, a importância dos seguros solares para a cobertura desses desastres naturais, a união de todo o setor para minimizar os impactos sobre as usinas e a relevância da mobilização da sociedade para ajudar – da forma que puderem – aqueles que mais precisam. Para ajudar nessa iniciativa de recuperação do Rio Grande do Sul, doações podem ser feitas em https://www.paraquemdoar.com.br/ .

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