Elas são a maioria da população, investem mais na graduação e pós-graduação, além de superarem os homens como concluintes de cursos. Mas, em alguns setores, ainda há um teto de vidro para a inserção e o estabelecimento de mulheres. As disparidades de gênero persistem em áreas como as exatas, a tecnologia e em cargos de liderança. Boletim do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) (2025) apontou que mesmo diretoras e gerentes mulheres ganham cerca de 33% menos que seus pares masculinos, chegando a uma diferença salarial que supera R$ 40 mil por ano. Elas ganharam em média R$ 6.798 por mês, enquanto os homens, nos mesmos cargos, R$ 10.126.
Quando nos concentramos no recorte do campo energético, o estudo “Construindo Pontes para uma Transição Energética Mais Justa: Análise da Pesquisa Mulheres em Energia 2025” traçou o perfil de mulheres que furaram a bolha e hoje atuam nos diferentes segmentos da cadeia energética. Foram 200 respondentes de todo o Brasil em análises quantitativas e qualitativas para mapear trajetórias, barreiras e aspirações, oferecendo insumos para políticas e práticas de equidade no setor. A pesquisa ajudou a reduzir a escassez de dados sobre a situação das profissionais de energia e a tangibilizar o desequilíbrio de gênero, ainda tido como marca do setor.
As mulheres em energia são, em sua maioria, cisgêneras (97%), brancas (66,5%), altamente qualificadas (72,5%), formadas em STEM (67,5%), têm até 10 anos de experiência (61%), entre 23 e 40 anos (70%) e atuam no Sudeste do país (58,5%).
Apesar da alta qualificação das respondentes, a percepção sobre representatividade feminina no setor energético é baixa: em uma escala de 1 a 10, a média atribuída foi 4,9, evidenciando insatisfação e sensação de sub-representação.
Entre as principais barreiras para entrada, destacam-se as normas culturais e sociais ainda enraizadas no setor — historicamente masculino — e a baixa presença feminina em áreas de STEM, que funcionam como porta de entrada para muitas posições técnicas e estratégicas.
Já na permanência, o desafio se desloca para o reconhecimento: falta de visibilidade, ausência de valorização profissional e desigualdade salarial foram as categorias mais mencionadas. As respostas qualitativas aprofundam esse cenário ao apontar uma cultura organizacional marcada por redes de poder concentradas e networking excludente, em que a progressão na carreira depende frequentemente de conexões pessoais, nem sempre acessíveis. A justiça salarial também aparece de forma recorrente, reforçando que não se trata apenas de ampliar a presença feminina, mas de garantir condições equitativas de crescimento e reconhecimento ao longo da trajetória profissional.
Raça e energia
A dimensão racial aprofunda ainda mais as assimetrias identificadas pela pesquisa. Entre as respondentes, apenas 30% se autodeclararam negras e nenhuma se identificou como indígena. A ausência e a sub-representação desses grupos contrastam com a composição demográfica brasileira e revelam que o setor energético, inclusive no contexto da transição, ainda reproduz desigualdades históricas.
O dado dialoga com levantamento do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), apresentado durante a COP30, em Belém (PA), segundo o qual apenas 7% dos empregos formais em companhias de energia limpa no Brasil são ocupados por mulheres negras. A pesquisa analisou a composição social, racial e de gênero nos setores de geração de energia elétrica e restauração ambiental e concluiu que, apesar do avanço do discurso sobre empregos verdes, a transição energética brasileira ainda não rompeu com padrões estruturais de exclusão.
O contraste é ainda mais significativo quando se considera que comunidades negras e indígenas estão historicamente entre as mais impactadas por grandes empreendimentos energéticos, como hidrelétricas, linhas de transmissão e exploração de recursos naturais, seja por deslocamentos, seja por impactos socioambientais em seus territórios. Ainda assim, seguem sub-representadas nos espaços de decisão, nas funções técnicas qualificadas e nas posições de liderança do setor. A discussão sobre justiça climática, cada vez mais relevante, pressupõe reduzir as emissões, promover uma adaptação justa e distribuir de forma equitativa os benefícios econômicos da transição.
Impactos climáticos
Discutir o limite de 1,5 °C no aquecimento global é, inevitavelmente, discutir o setor energético. Responsável por cerca de 73% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), a energia ocupa posição central tanto no agravamento quanto na mitigação da crise climática. O relatório de síntese mais recente do Intergovernmental Panel on Climate Change alerta que a janela para limitar o aquecimento a 1,5 °C está se fechando rapidamente, exigindo transformações profundas, rápidas e sistêmicas em todos os setores.
Para o mercado de renováveis — especialmente eólica e solar — isso significa expansão acelerada, aumento de investimentos e crescente pressão por inovação tecnológica, eficiência operacional e escalabilidade.
Nesse contexto, a agenda de gênero deixa de ser periférica. O relatório Renewable Energy: A Gender Perspective da International Renewable Energy Agency (2019) aponta que as mulheres representam apenas 32% da força de trabalho em energias renováveis no mundo, participação que diminui significativamente em funções técnicas, engenharia de campo e cargos executivos. O guia Gender Equality in the Sustainable Energy Transition, da ONU Mulheres em parceria com a United Nations Industrial Development Organization (2023), reforça que a inclusão feminina é um fator-chave para acelerar a transição e ampliar o impacto socioeconômico do setor.
A conexão é direta com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Nações Unidas, especialmente o ODS 7 (energia limpa e acessível), o ODS 5 (igualdade de gênero) e o ODS 13 (ação climática). No setor energético, esses objetivos se conectam, representando agendas interdependentes da mesma transformação estrutural.
Para o Brasil, que já possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável e vive uma expansão consistente da energia eólica e solar, o desafio é fortalecer sua base de talentos. A transição energética demanda novas competências em digitalização, armazenamento, integração de sistemas e financiamento sustentável. Ampliar a participação feminina, especialmente em STEM e em posições estratégicas, é uma questão de competitividade em um mercado que precisa crescer com velocidade e qualidade.
A transição energética é, antes de tudo, uma transformação sistêmica e sobre pessoas. Mercados que integrarem diversidade à sua estratégia tendem a ser mais resilientes, inovadores e alinhados às metas climáticas globais.
Autora: Natalia Figueiredo
Jornalista, formada em Comunicação pela UFRRJ, Videojornalismo na Universidade de Columbia e Pós-graduada em Big Data e Inteligência de Marketing pela ESPM. Escreve sobre cultura, tecnologia, sustentabilidade, gênero e energia. Foi co-fundadora da Outlab, hub criativo de Comunicação de Impacto, Social Media Ambassador do Global Landscape Forum 2025. É comunicadora no The Good Food Institute Brasil e voluntária em Marketing e Desenvolvimento Institucional na MPower Brasil.
A MPower Brasil é uma organização sem fins lucrativos dedicada à produção de dados, capacitação e promoção de mulheres no setor energético brasileiro.
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