As baterias instaladas junto à carga — conhecidas como BESS behind the meter — começam a encontrar espaço econômico em segmentos específicos do mercado brasileiro, especialmente entre consumidores do Grupo A4, onde as diferenças entre tarifas de ponta e fora de ponta podem justificar o investimento. Segundo Daniel Maia, sócio-diretor da Athon Energia, em entrevista à pv magazine Brasil para o especial Aplicações de baterias junto à carga em GD, a viabilidade está diretamente ligada à arbitragem tarifária intradiária.
“BESS é um investimento que se paga quando existe uma variação relevante entre o preço da tarifa menor e maior no mesmo dia. Em algumas regiões, essa diferença ainda é importante”, afirma. No entanto, ele pondera que o principal risco é a imprevisibilidade regulatória e tarifária no longo prazo. “Se essa diferença diminuir, a atratividade também pode cair.”
Aplicações já consolidadas
Além da arbitragem de energia (time shift), as baterias junto à carga já atendem a outras demandas técnicas e operacionais. Entre elas estão:
- Backup energético, substituindo ou operando em conjunto com geradores a diesel;
- Peak shaving, com redução da demanda contratada ao limitar picos de consumo;
- Operação híbrida, em paralelo à rede e a sistemas convencionais.
No caso do backup, a substituição do diesel tem sido um dos principais vetores de decisão. “O que está movendo ainda o consumidor é o backup, principalmente para substituir o diesel, já que a bateria pode ser mais barata ao longo do tempo”, explica Maia.
No modelo de peak shaving, o consumidor mantém sua demanda próxima ao limite contratado e utiliza a bateria para compensar eventuais picos, reduzindo custos com demanda excedente.
Consumidor de GD tende a avançar para armazenamento

Imagem: Athon Energia
Consumidores que já investiram em geração distribuída (GD) demonstram maior propensão a adotar baterias, na avaliação da Athon. “Ele é alguém que já se empoderou e tomou a decisão de investir”, diz Maia.
A expectativa é que, com evoluções regulatórias, modelos de GD com despacho horário e contratos mais dinâmicos incentivem ainda mais a integração entre geração e armazenamento. A possibilidade de contratar energia em horários distintos, aproveitando variações de preço, pode alterar hábitos de consumo e ampliar a atratividade da arbitragem energética.
Limitações ainda são regulatórias
Apesar do avanço tecnológico e da queda nos preços das baterias, o executivo aponta que as principais barreiras atualmente são regulatórias. “Tecnicamente e economicamente avançamos muito. As baterias estão em outra escala de produção, os preços caíram. Mas hoje a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tem a responsabilidade de regular a aplicação da GD tanto na distribuição quanto na transmissão, e isso ainda inibe o mercado.”
A regulamentação em discussão na agência poderá definir as bases para maior integração entre armazenamento e sistema elétrico, especialmente no que diz respeito à prestação de serviços ancilares.
Serviços ancilares e o papel dos inversores inteligentes
A associação entre geração distribuída e baterias ganha relevância adicional com o uso de inversores inteligentes, especialmente os chamados grid-forming inverters. Esses equipamentos são capazes de oferecer suporte de tensão, frequência e potência à rede.
“É como se fosse possível ter ‘ONS espalhados’ em milhares de pontos do sistema elétrico”, afirma Maia.
A Lei 14.300 já prevê, ainda de forma incipiente, a possibilidade de a GD oferecer serviços ancilares. Com o suporte das baterias, esses serviços podem incluir:
- Ajuste de frequência;
- Controle de tensão;
- Suporte em momentos de aumento ou queda abrupta de carga;
- Gestão coordenada da geração distribuída.
Em um cenário de crescente descentralização da geração, a coordenação desses pontos pode ampliar a confiabilidade do sistema e expandir o leque de soluções disponíveis às distribuidoras.
Perspectivas
Embora o consumidor ainda não perceba problemas como o curtailment como ameaça direta, a tendência é que a combinação entre GD, baterias e inversores inteligentes ganhe protagonismo nos próximos anos, especialmente à medida que a regulação evolua.
Para o setor, o armazenamento junto à carga deixa de ser apenas uma solução de contingência e passa a ocupar posição estratégica na transição energética brasileira — tanto como ferramenta de gestão de custos quanto como ativo de suporte ao sistema elétrico.
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