O mercado brasileiro de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) instalados junto à carga vive uma fase de aceleração e amadurecimento técnico e comercial. Segundo o diretor de Engenharia da SecPower, Marco Antonio Togniazzolo, o volume comercializado no país em 2025 ficou entre 1,3 GWh e 2,5 GWh, refletindo um crescimento de demanda de cerca de 51% em relação ao ano anterior. Para 2026, a expectativa é que as instalações junto à carga e em sistemas isolados ultrapassem 2 GWh, impulsionadas por aplicações já consolidadas e maior clareza regulatória.
De acordo com o executivo, o armazenamento deixou de ser uma solução pontual para se tornar uma ferramenta estratégica na gestão energética de consumidores comerciais, industriais, de infraestrutura crítica e mobilidade elétrica. “Hoje, o BESS atende necessidades claras de segurança energética, redução de custos e otimização do uso da energia, o que sustenta economicamente os projetos”, afirma.
Entre as aplicações mais difundidas estão os sistemas de backup, que evitam perdas e prejuízos causados por interrupções no fornecimento, especialmente em cargas críticas; o time shift, que permite armazenar a energia solar gerada durante o dia para uso no horário de ponta; o peak shaving, voltado à redução da demanda contratada e dos custos associados; e o aumento do autoconsumo, que maximiza o aproveitamento da geração distribuída e mitiga os impactos da Lei nº 14.300.

Imagem: SecPower
Na avaliação da SecPower, o mercado brasileiro de baterias junto à carga apresenta hoje uma concentração crescente em projetos comerciais e industriais, sobretudo em regiões com elevado custo de energia e restrições de demanda. A maior parte das instalações envolve sistemas BESS de médio porte, aplicados em estratégias de peak shaving, backup energético e otimização da fatura elétrica. Outro movimento relevante é a substituição ou complementação de geradores a diesel por baterias, impulsionada tanto pela eficiência econômica quanto por compromissos ambientais e metas ESG.
Casos como os projetos STERBOM e TELD Eletropostos ilustram essa tendência. No setor industrial, a STERBOM adotou o armazenamento para garantir produção contínua, reduzir custos energéticos e implementar controle horário de carga aliado ao peak shaving. Já a TELD integra sistemas BESS à infraestrutura de recarga de veículos elétricos, ampliando a capacidade instalada, protegendo a operação contra blackouts e viabilizando uma gestão mais inteligente da energia.

Imagem: SecPower
A demanda por backup tem sido um dos principais motores do crescimento do segmento. Segundo Togniazzolo, quedas recorrentes no fornecimento elétrico fazem com que a segurança energética se sobreponha, em muitos casos, à otimização puramente econômica. “Quando a interrupção passa a impactar diretamente a operação, o armazenamento deixa de ser opcional e se torna parte da estratégia do negócio”, destaca.
Consumidores que já investiram em geração distribuída também aparecem como público naturalmente mais propenso à adoção de baterias. Para o executivo, o armazenamento representa a evolução da GD, ao permitir maior aproveitamento da energia gerada, garantir backup e preparar o consumidor para cenários futuros, como tarifas dinâmicas e maior exposição ao mercado livre.
Apesar do avanço, o mercado ainda enfrenta desafios. As principais limitações estão ligadas ao custo inicial dos sistemas, à regulação e à formação técnica. Embora os preços das baterias venham caindo ano a ano, o investimento inicial ainda é percebido como uma barreira, muitas vezes reforçada pelo mito de que “bateria custa caro”. “A evolução tecnológica, especialmente com a consolidação das baterias LFP, e o ganho de escala global estão reduzindo o payback, mas ainda há um trabalho de educação do mercado”, avalia Togniazzolo. A capacitação técnica também é um ponto sensível, sobretudo entre integradores com histórico predominantemente on-grid.
No campo regulatório, a Consulta Pública nº 39/2023 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é apontada como decisiva para destravar o segmento. O principal ponto de atenção é a definição sobre a chamada dupla tarifação. Para a SecPower, a eliminação da cobrança de encargos e tarifas tanto no carregamento quanto na descarga das baterias é fundamental para a viabilidade econômica de aplicações como time shift e projetos de maior escala. A expectativa é que a regulamentação, prevista para 2026, traga clareza sobre outorga, acesso e remuneração, criando um ambiente mais previsível para investimentos.
Em termos tecnológicos, a tendência é de consolidação da tecnologia LFP, escolhida por seu custo-benefício e maior segurança, além da integração crescente de sistemas de gestão de energia (EMS) e inversores híbridos, que permitem uma operação mais inteligente e flexível dos ativos.
O avanço do armazenamento também abre espaço para novos modelos de negócio. Entre eles, ganham destaque soluções no formato as-a-service, que reduzem a barreira do investimento inicial ao migrar o modelo para OPEX; a formação de virtual power plants (VPP), com potencial de geração de novas receitas a partir da agregação de sistemas distribuídos; a prestação de serviços ancilares à rede; e a arbitragem no mercado livre, especialmente diante da abertura total do ACL. “O armazenamento tende a ocupar um papel central na próxima etapa do setor elétrico brasileiro”, conclui o executivo.
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