Conta de luz deve subir em 2026 com novas regras e pressão por encargos; GD e baterias ganham espaço

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O início de 2026 projeta um dos períodos mais turbulentos dos últimos anos para o setor elétrico brasileiro. Especialistas alertam que a combinação de novos encargos, mudanças regulatórias e o início dos efeitos da reforma tributária deve provocar alterações significativas no perfil de consumo de energia no país. Consultorias como a TR Soluções projetam aumento médio de 5,4% nas tarifas residenciais ao longo do ano, enquanto algumas regiões podem registrar altas superiores a 30%, segundo análises divulgadas pela imprensa especializada.

No centro dessas pressões está a evolução dos custos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que pode ultrapassar R$ 52 bilhões em 2026, e a transição da tarifa da baixa tensão para um modelo horário, compulsório para consumidores com demandas acima de 1 MWh, que totalizam cerca de 2,5 milhões de unidades no país e respondem por 25% do consumo em Baixa Tensão do Brasil.

O tema que será discutido em oficinas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) entre 21 de janeiro e 3 de fevereiro. A mudança, vista por especialistas como uma “tarifa branca 2.0”, altera completamente a lógica de consumo: usar energia no período noturno pode custar mais do que o dobro do valor praticado hoje.

A agência anunciou em dezembro uma consulta pública que propõe aplicar tarifa horária de forma automática a consumidores de baixa tensão com consumo superior a 1 MWh para incentivar o uso de energia em horários de maior oferta, especialmente durante o dia e determinou que também seja avaliada a aplicabilidade e os impactos da migração automática para a Tarifa Branca para os consumidores que possuem Micro e Minigeração Distribuída (MMGD), frente ao Marco Legal da MMGD instituído pela Lei nº 14.300/2022.

No mercado solar, os efeitos das mudanças políticas se somam a um cenário externo desafiador. O diretor de Negócios Solar, BESS & Charging da WEG, Harry Neto, comenta que os módulos fotovoltaicos já vêm acumulando aumentos desde o final de 2025, agravados pelo anúncio do governo chinês de que a tarifa de exportação — antes subsidiada — passará a ser tributada integralmente. “A partir de abril, os painéis terão aumento mínimo de 9%, e inversores e sistemas BESS também sofrerão reajustes de aproximadamente 3%”, afirma.

No mercado de geração distribuída, o executivo observa um “crescimento mais acentuado no setor residencial, enquanto as usinas de autoconsumo remoto enfrentam um desaquecimento. “Isso se deve, principalmente, à escassez de projetos GD0 e GDI que necessitavam de reforço de rede, e à competição com a compra de usinas prontas, além de uma sobreoferta de autoconsumo”.

Apesar do cenário adverso, a busca por autonomia energética está aquecendo o segmento de baterias e soluções híbridas. Segundo Neto, cresce a procura por sistemas BTM (Behind the Meter), em que a energia solar é conectada diretamente à carga, reduzindo perdas e oferecendo maior controle dos custos. “A busca por backup aumentou muito após as falhas no fornecimento em diversas regiões. O potencial das baterias, tanto no residencial quanto no comercial, é enorme”, avalia.

O executivo aponta que, embora o mercado de usinas de grande porte esteja mais lento devido a restrições de corte de energia, o leilão específico para sistemas de armazenamento BESS (Battery Energy Storage Systems) previsto para abril de 2026 deve impulsionar o setor e aliviar a rede.

Três forças que vão moldar a conta de luz em 2026

A vice-presidente de Geração Distribuída da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) e CEO da Bright Strategies, Barbara Rubim, destaca três fatores determinantes que farão de 2026 um ano de ruptura na forma como consumidores se relacionam com a energia elétrica:

Aumento das tarifas: estimativas de consultorias como a TR Soluções apontam que os reajustes devem ocorrer de forma desigual entre regiões, podendo ultrapassar 30% em áreas específicas devido a recomposições tarifárias e variáveis locais.

Tarifa horária compulsória: a nova lógica de preço por horário — e não mais uma tarifa única — afetará diretamente o planejamento doméstico e empresarial. Consumir energia nos horários de pico pode custar até o dobro.

Reforma Tributária: ainda sem impacto totalmente mensurável, a reforma alterará a base de cálculo e a distribuição dos impostos no setor elétrico, potencializando a volatilidade das tarifas ao longo do ano.

Inteligência energética deixa de ser tendência e vira necessidade

Barbara reforça que a soma desses três vetores fará com que consumidores dependam mais de planejamento energético. “Informação, monitoramento, baterias e geração distribuída se tornam ferramentas essenciais para não ser refém da conta de luz”, afirma.

As transformações também devem impulsionar tecnologias como inversores híbridos, medição inteligente e automação de consumo, especialmente em residências e comércios que buscam reduzir exposição às tarifas de pico.

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