A transição energética é um dos maiores e mais urgentes desafios do nosso tempo. Para enfrentá-la, precisamos de ciência, inovação, criatividade e coragem para reimaginar como vivemos e como nos relacionamos com a energia. Mas há uma verdade incômoda neste processo: estamos tentando resolver o problema complexo do nosso tempo utilizando apenas parte do talento, da criatividade e das perspectivas disponíveis.
De acordo com a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), as mulheres ocupam apenas 32% dos empregos no setor de energia renovável globalmente. Quando observamos os cargos de liderança sênior, a desigualdade se intensifica: apenas 19% dessas posições são ocupadas por mulheres.
No Brasil, essa desigualdade também se repete. Segundo a pesquisa “As Mulheres no Setor Elétrico”, conduzida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) em 2023, as mulheres correspondem a cerca de 20% da força de trabalho do setor elétrico brasileiro, mas seguem amplamente sub-representadas nos espaços de decisão, ocupando apenas aproximadamente 5,5% dos cargos de alta liderança. A pergunta que deve ser feita é direta: quem está ocupando os espaços de poder? E por quê?
A baixa diversidade no setor, especialmente em posições de liderança, limita a capacidade de resposta a esse desafio. Quando olhamos para esse cenário sob o recorte de gênero, essa desigualdade se evidencia com ainda mais nitidez nos espaços de liderança.
Esses números não são neutros: eles revelam que a presença feminina no setor não se reflete, na mesma proporção, no acesso aos espaços de tomada de decisão. É como se disséssemos às mulheres: vocês podem estar aqui, mas não necessariamente nos lugares em que se definem os rumos do setor. E isso importa porque ambientes que incorporam perspectivas diversas tendem a ampliar o repertório da análise, desafiar vieses e produzir decisões mais representativas da complexidade do mundo real.
O fato de as mulheres ainda ocuparem poucas posições de liderança no setor energético não se explica por falta de qualificação. Segundo pesquisa realizada em 2025 pela organização sem fins lucrativos MPower Brasil, 72,5% das mulheres no setor de energia possuem pós-graduação. O que persiste, portanto, não é um problema de capacitação, mas de barreiras estruturais. Como setor e como sociedade, além da transição energética, é preciso também lutar pela transformação dos mecanismos que seguem determinando quem pode chegar aos espaços de poder. Se essas lutas não se complementarem, vamos continuar seguindo em apenas 50% da nossa capacidade.
A importância da perspectiva de gênero
Organizações como a MPower Brasil partem desse entendimento e atuam sobre uma das dimensões do problema. Por meio de programas de formação de lideranças, produção de dados sobre gênero e energia e fortalecimento de redes profissionais, a organização ajuda a enfrentar barreiras estruturais que seguem limitando o avanço das mulheres no setor.
O Programa de Formação de Lideranças Femininas em Energia, por exemplo, vai além de apenas oferecer capacitação: em vez disso, reconhece que as mulheres no setor já são altamente capacitadas, mas, em razão da histórica falta de oportunidades e representações nesses espaços, sentem falta precisamente de habilidades de liderança.
Portanto, o programa vai além de um simples treinamento – em vez disso, escolhe criar um espaço que conecta essas profissionais de alto impacto a lideranças de todos os setores de energia para que compreendam as oportunidades que existem e expandam suas redes de forma estratégica. Por meio de uma imersão presencial, o programa fortalece as conexões entre esse grupo de mulheres diversas e as expõe aos principais tomadores de decisão em energia, abrindo caminhos reais para suas trajetórias.
Esse é um passo importante para a abertura de possibilidades reais de que ocupem, com preparo e confiança, estruturas historicamente marcadas pela predominância masculina. Programas como esse são fundamentais e precisam ser escalados. Tornam-se a base sobre a qual mulheres constroem confiança, desenvolvem habilidades de liderança e acessam oportunidades reais. No entanto, para que essas iniciativas gerem transformação duradoura, precisam ser complementadas por uma mudança estrutural mais profunda. Políticas de contratação, promoção e retenção que traduzam, na prática, um compromisso real com a diversidade são essenciais para garantir que espaços mais diversos continuem em ascensão.
Pluralidade de vozes no setor
A transição energética não será completa enquanto não for também liderada por pessoas que reflitam a diversidade do mundo que buscamos transformar. Não apenas porque isso é moralmente correto (embora também seja!), mas porque isso amplia a capacidade de imaginar, decidir e inovar. Embora este ensaio se concentre apenas no recorte de gênero, é fundamental também reconhecer os diversos atravessamentos que perpassam esse contexto e compreender que a transformação real exige a promoção de uma diversidade multidimensional. Ainda precisamos abrir esses espaços para pessoas de diferentes idades, territórios, raças, orientações sexuais, identidades de gênero, pessoas com deficiência, neurodivergências e outras experiências historicamente invisibilizadas nas instâncias de decisão. Lideranças diversas ampliam perspectivas, revelam caminhos antes desconsiderados e tornam a tomada de decisão mais representativa. E inovação, no fim, também gera resultados.
Então, a pergunta não é apenas quais espaços são ou não democráticos na transição energética. A pergunta que realmente importa é: somos corajosos o suficiente para transformar as estruturas que ainda limitam esse acesso? E, se não somos, quanto essa falta de coragem ainda nos custará?
Referências
IRENA (International Renewable Energy Agency). “Women’s Share of the Renewable Energy Workforce Remains at 32 percent”. Outubro de 2025. Disponível em: Renewable energy: A gender persepctive – second edition
MPower Brasil (2025). Mulheres no Setor de Energia: construindo pontes para uma transição energética mais justa. MPower, Brasília. Disponível em: 2025_10_Publicacao_PesquisaMulheresEnergia.pdf
ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica). “Mulheres no Setor Elétrico”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0H_i3sc3UJ4
Autora — Pâmela Silveira Costa
Geóloga, consultora e pesquisadora, com atuação voltada às geociências, ao setor de energia e à interface entre ciência, inovação e desenvolvimento sustentável. Mestre pela Universidade de Brasília e graduada em Geologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, construiu uma trajetória que integra pesquisa, gestão de projetos, comunicação estratégica e produção de conhecimento aplicado. É Líder de Pesquisa e Dados da MPower Brasil. No âmbito internacional, foi delegada brasileira na VII Cúpula Energética da Juventude do BRICS e integrou a equipe de especialistas do BRICS Youth Energy Outlook 2025, contribuindo para análises sobre financiamento da transição energética e minerais críticos. Seu trabalho se concentra em temas como transição energética, minerais críticos, equidade de gênero e cooperação multissetorial.
Coautora — Bianca Miranda
Natural de Belém do Pará, na Amazônia brasileira, Bianca é mestranda em Direito da Energia e das Mudanças Climáticas na Queen Mary University of London, como Chevening Scholar e Lemann Fellow. Bacharel em direito pelo Centro Universitário do Estado do Pará como bolsista integral do Programa Universidade para Todos (ProUni), também teve formação complementar na Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris) como bolsista do Programa Diálogos Transatlânticos, da Iniciativa Pour le Brésil.
Com experiência em consultorias para organizações internacionais do terceiro setor e bancos multilaterais de desenvolvimento, Bianca atua como analista no think tank Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD). Sua trajetória inclui colaboração com clínicas de direitos humanos, iniciativas de base e redes acadêmicas e jurídicas interamericanas.
Seu trabalho se concentra em temas como litigância climática, governança climática, e o papel de atores subnacionais na implementação de políticas climáticas efetivas, especialmente no contexto da América Latina e do Sul Global.
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