A “tempestade perfeita” na GD: reforma tributária e o novo custo da energia solar

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O setor fotovoltaico brasileiro habituou-se, ao longo da última década, a operar sob um manto de incentivos fiscais que foram fundamentais para a sua escala atual. No entanto, o cenário para 2026 desenha o que podemos chamar de “tempestade perfeita”: a convergência entre o fim gradual das isenções de ICMS e a implementação prática da Reforma Tributária (IBS e CBS).

Para o integrador e para o investidor, a variável “imposto” deixou de ser um detalhe na planilha para se tornar o fator determinante da Taxa Interna de Retorno (TIR). Com mais de 43 GW de capacidade instalada em geração distribuída e mais de 3,8 milhões de unidades consumidoras atendidas no Brasil, segundo dados oficiais do setor, o setor deixou de ser nicho e passou a representar parcela relevante da expansão da matriz elétrica. Essa escala transforma alterações tributárias em risco sistêmico para o segmento.

O Fim da Era das Isenções de ICMS

O principal pilar de viabilidade da Geração Distribuída (GD) no Brasil foi o Convênio ICMS 16/2015, que permitiu a isenção do imposto estadual sobre a energia compensada. Contudo, essa concessão nunca foi perene. Com a transição para o novo regime fiscal e o aperto nas contas estaduais, observamos um movimento de retirada gradual desses benefícios.

A questão é técnica e direta: a energia injetada na rede, que antes retornava ao consumidor quase sem carga de ICMS sobre o componente de energia, agora começa a ser tributada de forma plena em diversos estados. Em um sistema residencial típico na faixa de R$ 25 mil, com payback médio estimado entre quatro e cinco anos, uma elevação de 3% a 5% na carga tributária efetiva incidente sobre a energia elétrica compensada no âmbito do sistema previsto na Lei 14.300 pode alongar o retorno em vários meses, dependendo da tarifa estadual e do perfil de consumo. Em projetos de maior porte, o impacto acumulado sobre a TIR torna-se ainda mais sensível.  Se o integrador continua vendendo projetos baseados em premissas tributárias de dois anos atrás, ele está entregando um passivo financeiro ao seu cliente.

A Reforma Tributária: IBS, CBS e a Neutralidade em Xeque

A Reforma Tributária aprovada pela Emenda Constitucional 132/2023 promove a substituição do PIS, COFINS, ICMS e ISS pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), introduzindo o conceito de não-cumulatividade plena. Em teoria, isso deveria ser neutro. Na prática, o setor de energia solar enfrenta desafios específicos.

O período de transição previsto se estende até 2033, com convivência progressiva entre os regimes atual e novo, o que adiciona complexidade operacional e fiscal às empresas do setor.

A grande dúvida reside na alíquota padrão que será aplicada. Se a energia solar não for classificada como um setor de alíquota reduzida — sob o argumento de sua essencialidade para a transição ecológica —, poderemos ver um aumento na carga tributária final sobre a fatura de energia. Além disso, o momento do crédito tributário nas aquisições de equipamentos (CAPEX) versus o débito na prestação de serviço (OPEX) exige um fluxo de caixa muito mais robusto das empresas do setor.

O Impacto no Modelo de Locação de Equipamentos

Atualmente, o modelo de locação é a espinha dorsal da geração compartilhada e das usinas de investimento. A lógica é simples: aluga-se o equipamento e o benefício vem via créditos de energia. Mas como fica esse contrato perante o novo IBS/CBS?

  1. Bitributação e Base de Cálculo: Existe o risco de que a locação de equipamentos passe a ser tributada de forma mais agressiva, sem que o locatário (consumidor final) consiga aproveitar integralmente os créditos tributários.
  2. Segurança Jurídica: Contratos de 10 ou 15 anos foram assinados sob uma lógica fiscal que está desaparecendo. A renegociação desses contratos — ou a inclusão de cláusulas de equilíbrio econômico-financeiro — será a nova rotina dos departamentos jurídicos e financeiros.

Comparativo Tributário: Regime Atual vs. Novo Regime (IBS/CBS)

Aspecto Regime Atual (PIS, COFINS, ICMS, ISS) Novo Regime (IBS e CBS) Impacto Estratégico para GD
Alíquota Combinada 3,65% (Lucro Presumido) a 9,25% (Lucro Real) + ICMS (variável por estado). Projeções preliminares associadas ao desenho da EC 132 indicam uma alíquota padrão em torno de 26,5% a 28%. Aumento nominal da alíquota padrão, compensado parcialmente pelo sistema de créditos.
Locação de Equipamentos Não incidência de ISS e ICMS (Súmula Vinculada 31 do STF). Incide apenas PIS/COFINS. Caso mantido o redutor setorial de 70% previsto na regulamentação preliminar (Alíquota efetiva ~9%). Fim da “isenção técnica” da locação; aumento de custo nos modelos de aluguel de usinas.
Créditos de CAPEX Restritos e Lentos: Apenas no Lucro Real, via depreciação (anos) ou crédito em 1/48 meses. Plenos e Imediatos: Crédito integral e imediato na aquisição (vinculado ao pagamento do fornecedor). Melhora o fluxo de caixa de projetos intensivos em capital; favorece o regime de Lucro Real.
Isenção de ICMS (Convênio 16/15) Isenção sobre a energia injetada (TE), variando conforme o estado e regras da Lei 14.300. Extinção gradual: O benefício será reduzido proporcionalmente à queda do ICMS (transição de 2026 a 2033). Redução da atratividade econômica da compensação de créditos ao longo da transição.
Cumulatividade Cumulativo no Lucro Presumido (imposto vira custo). Não-cumulatividade plena: Todos os insumos geram crédito (inclusive energia e serviços). Estímulo à formalização da cadeia e recuperação de impostos pagos em cada etapa.
REIDI Suspensão de PIS/COFINS para projetos de infraestrutura aprovados. Mantido e adaptado: Previsão de desoneração (alíquota zero ou suspensão) para IBS e CBS. Essencial para usinas de maior porte (Minigeração) manterem o equilíbrio financeiro.

Planejamento Tributário: A Nova Manutenção Preditiva

Para manter a viabilidade dos projetos em 2026, o planejamento tributário deve ser encarado com a mesma seriedade que a manutenção preditiva das usinas. Não se trata de evasão, mas de eficiência.

  • Estruturação de SPVs (Sociedades de Propósito Específico): A escolha do regime tributário da SPV que detém a usina será crucial. O Lucro Real pode se tornar mais vantajoso que o Lucro Presumido devido à possibilidade de aproveitamento de créditos de IBS/CBS sobre insumos e manutenção.
  • Verticalização vs. Terceirização: Empresas que internalizam a instalação e a operação podem ter vantagens competitivas na gestão do crédito tributário em comparação com aquelas que apenas “atravessam” contratos.

Em um ambiente de margens cada vez mais comprimidas e maior competição no mercado de GD, pequenas variações na carga tributária passam a definir a viabilidade econômica dos projetos.

Conclusão

O setor solar entra em uma fase de maior exposição tributária e menor previsibilidade regulatória, consolidando sua transição para uma etapa de maturidade competitiva. 

O integrador em 2026 precisa ser um híbrido de engenheiro e consultor financeiro. A tecnologia permanece competitiva, mas o ambiente fiscal redefine a equação econômica dos projetos. Aqueles que anteciparem a curva de aprendizado da Reforma Tributária não apenas sobreviverão à “tempestade”, mas serão os novos líderes de um mercado mais profissional e resiliente.

Autor: Prof. Fernando Caneppele (GEPEA/USP – GESEL/UFRJ – CISTEM)

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