Huawei soma mais de 100 MWh em BESS no país e vê arbitragem como motor do mercado

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O mercado brasileiro de armazenamento de energia junto à carga já começa a apresentar casos concretos de viabilidade técnica e econômica, especialmente em aplicações ligadas à arbitragem tarifária e à melhoria da qualidade de energia. Segundo Roberto Valer, CTO da Huawei Digital Power, em entrevista à pv magazine Brasil para o especial Aplicações de baterias junto à carga em GD, mais de 100 MWh de tecnologia da empresa já estão em operação no Brasil em sistemas instalados junto à carga, atendendo consumidores comerciais, industriais e de serviços.

Arbitragem tarifária e qualidade de energia sustentam a viabilidade

Na avaliação do executivo, a arbitragem de energia é hoje um dos principais vetores de viabilidade econômica do armazenamento no país. “A diferença entre a tarifa de ponta e fora de ponta é bastante elevada em estados como Bahia, Pará, Tocantins e Piauí, o que já demonstra viabilidade econômica para aplicações de time shift”, afirma.

Outro fator relevante é a qualidade de energia. Segundo Valer, problemas como harmônicos, flutuações de tensão e baixo fator de potência ainda afetam muitas plantas industriais no Brasil. “Esses distúrbios impactam toda a cadeia produtiva, gerando perda de matéria-prima e horas de trabalho. As soluções de armazenamento podem resolver parcial ou totalmente esses problemas, oferecendo mais resiliência e previsibilidade”, destaca.

Baterias não são “bala de prata”

O CTO da Huawei, Roberto Valer.

Imagem: Huawei

Apesar do avanço, o CTO da Huawei faz um alerta: o armazenamento não resolve todos os problemas energéticos. “A bateria não é uma bala de prata. Existem situações em que o problema está na infraestrutura da fábrica, da unidade consumidora ou mesmo na rede, e não será resolvido apenas com BESS”, ressalta.

Essa avaliação também se aplica à arbitragem e ao backup. Em projetos voltados à arbitragem tarifária, por exemplo, o sistema pode não estar preparado para atuar como fonte de backup contínuo. “A bateria precisa ser carregada em um momento planejado, o que é diferente da lógica de um gerador a diesel, que pode entrar a qualquer momento”, explica.

Substituição do diesel é possível, mas exige engenharia especializada

A Huawei vê a substituição de geradores a diesel por baterias como tecnicamente viável, de forma parcial ou total, desde que o projeto seja bem dimensionado. “É fundamental ter uma engenharia especializada, que compreenda as características do produto e da unidade consumidora e alinhe corretamente as expectativas com o cliente final”, afirma Valer.

Segundo ele, todo projeto de armazenamento precisa ter sua função principal claramente definida, além de possíveis funções complementares. “Tudo precisa ser muito bem estudado e explicado. O design do sistema é determinante para o sucesso técnico e econômico”, acrescenta.

Limitações técnicas e econômicas na qualidade de energia

Nem sempre o uso de baterias é a solução mais econômica para problemas de qualidade de energia. Em casos de flutuação de tensão sistêmica, por exemplo, injetar ou absorver reativos por meio de BESS pode ser menos viável do que investimentos diretos em infraestrutura. “Cada caso precisa ser avaliado tecnicamente”, pondera o executivo.

Além disso, existem limitações técnicas para o uso das baterias como backup, como o tempo de comutação. “Cargas sensíveis, como data centers, muitas vezes exigem UPS dedicadas, e não apenas sistemas de armazenamento”, explica.

Perfis atendidos e relação com a geração distribuída

As soluções da Huawei atendem atualmente perfis variados, como mercados, fábricas, frigoríficos e hotéis, resolvendo desde questões de continuidade operacional até problemas de qualidade de energia.

Consumidores que já investiram em geração distribuída tendem a estar mais próximos da adoção de baterias, mas isso não significa uma decisão automática. “Eles já estão metade do caminho, mas a instalação da bateria depende da necessidade específica, não apenas de afinidade com tecnologia”, afirma Valer.

Barreiras: regulação, padronização e tributação

Na avaliação da Huawei, a expansão do mercado de armazenamento no Brasil ainda enfrenta barreiras importantes. Entre elas está o desconhecimento tecnológico, que gera receios sobre custos, segurança e o momento certo de investir. Modelos de best service ajudam a reduzir essa resistência inicial.

No campo regulatório, o executivo destaca a importância da Consulta Pública nº 39 da Aneel, tanto para a geração centralizada quanto para a GD. “Para projetos de grande porte, a regulação define tarifas, uso da rede e o modelo financeiro. Já na GD, ainda faltam regras mais claras e incentivos para a adoção de baterias”, avalia.

Outro desafio é a falta de padronização técnica. “Hoje não existem normas ABNT específicas para segurança de equipamentos e instalações de BESS. Isso pode gerar problemas futuros, como a necessidade de retrofit em projetos que não consideraram espaçamentos, ventilação e sistemas de proteção adequados”, alerta. Segundo ele, o envolvimento do Corpo de Bombeiros e da ABNT é essencial para estabelecer diretrizes claras.

A tributação também aparece como entrave. Apesar da Lei nº 15.269 prever isenção de imposto de importação para projetos de grande porte, ainda não há clareza sobre sua aplicação prática. “A carga tributária atual é comparável à de produtos como o cigarro, o que não reflete a importância das baterias para o sistema elétrico. O setor busca isonomia tributária, não subsídios”, destaca.

Tendências tecnológicas: segurança e inteligência artificial

Entre as principais tendências tecnológicas, Valer aponta a evolução das químicas das baterias, com células de maior capacidade e melhor comportamento de degradação, além de avanços significativos em segurança. “Normas internacionais, como a NFPA 855, exigem testes de fogo em grande escala. É fundamental que o Brasil adote padrões de segurança elevados”, defende.

A inteligência artificial também ganha protagonismo, especialmente em operação e manutenção. “A IA é essencial para manutenção preditiva em sistemas de maior porte, permitindo identificar anomalias e evitar sinistros”, afirma. O avanço do EMS, da eletrônica de potência e do controle do BMS também é visto como crucial para garantir desempenho e vida útil das baterias.

Mercados prioritários e eventos extremos

A Huawei aposta fortemente no mercado C&I e agronegócio, além de aplicações off-grid e oportunidades no leilão de reserva de capacidade, que pode viabilizar a contratação de grandes volumes de baterias conectadas ao sistema de transmissão.

Eventos climáticos extremos também têm reforçado a busca por armazenamento. “Chuvas e ventos fortes, que causam interrupções no sistema elétrico, aumentam a percepção de risco, especialmente em mercados como São Paulo”, observa Valer.

Mercado residencial avança de forma gradual

No segmento residencial, a adoção de baterias tende a ocorrer de forma progressiva, impulsionada por problemas de resiliência da rede. Segundo o executivo, os inversores da Huawei já vendidos no Brasil estão preparados para receber baterias, exigindo apenas a adição de um equipamento complementar. “Não é necessário substituir o inversor”, explica.

Por fim, Valer reforça que as baterias não precisam estar necessariamente associadas à geração solar. “O armazenamento é uma solução independente, que pode atender diferentes necessidades energéticas, com ou sem geração própria”, conclui.

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