Depois de dois anos de forte expansão, o mercado fotovoltaico brasileiro passou por um período de acomodação em 2025, com queda nas instalações tanto na geração centralizada (GC) quanto na geração distribuída (GD). De acordo com o diretor Comercial da Axial no Brasil, David Sigismondi, o volume anual instalado recuou de cerca de 15 GW em 2024 para aproximadamente 10 GW no ano passado.
“Foi um ano bastante desafiador, com impacto direto da sobreoferta de energia, do curtailment e das dificuldades de conexão. Esse cenário segurou investimentos e reduziu significativamente a demanda por equipamentos, especialmente na GD”, afirma o executivo em entrevista à pv magazine Brasil. Na avaliação do executivo, o ambiente de ajuste deve se estender até 2027, quando o setor tende a entrar em um ciclo mais estável.
Apesar do contexto doméstico mais restritivo, Sigismondi ressalta que a desaceleração não foi exclusiva do Brasil. “Houve uma queda generalizada em alguns mercados, como México e Colômbia. Ainda assim, para a Axial, 2025 foi um ano muito positivo, impulsionado principalmente pela forte demanda na Europa, especialmente no Reino Unido e na Itália”, diz. A empresa também vem ampliando sua atuação na Ásia e em países do Oriente Médio.
Consolidação do mercado e maior previsibilidade

Imagem: Axial
No Brasil, o diretor da Axial avalia que 2025 marcou um processo de consolidação do setor, com desistência de outorgas, redução de projetos pouco maduros e maior clareza quanto aos riscos regulatórios e operacionais. “O início do ano foi bastante pessimista, mas ao longo de 2025 os leilões de transmissão trouxeram um sinal importante de organização e previsibilidade para o mercado”, afirma.
Entre os avanços citados estão os projetos de novas linhas de transmissão licitados nos últimos anos, incluindo corredores em corrente contínua, circuitos de 500 kV e a instalação de compensadores síncronos no Nordeste. “Hoje já existe visibilidade de que essas linhas vão entrar em operação, o que reduz a incerteza associada ao curtailment. Em 2023, esse cenário ainda era muito difuso”, observa.
O executivo também destaca que o avanço regulatório ao longo do ano contribuiu para uma melhor percepção de risco por parte dos investidores. “Os riscos continuam existindo, mas agora estão mapeados. Isso muda completamente como os projetos são avaliados”, afirma.
Preço da energia e desafios de financiamento
Outro fator que começa a alterar as perspectivas do setor é o aumento do preço da energia. Sigismondi cita estudos recentes que apontam elevação de até R$ 150/MWh, refletindo um Preço de Liquidação de diferenças (PLD) mais elevado e condições hidrológicas menos favoráveis. “Esse movimento tende a melhorar a atratividade dos projetos de geração centralizada no médio prazo”, diz.
Por outro lado, o custo do capital segue pressionando as decisões de investimento. Juros elevados e garantias mais caras têm levado desenvolvedores a buscar alternativas ao financiamento tradicional. “Vemos uma diversificação maior das estruturas financeiras, com uso crescente de debêntures e outras soluções para viabilizar os projetos”, explica.
Eficiência operacional impulsiona interesse por retrofit
Em um ambiente de margens mais apertadas e maior exigência por desempenho, Sigismondi destaca que a competitividade dos projetos solares passa cada vez mais pela eficiência operacional ao longo da vida útil da usina — e não apenas pelo CAPEX inicial.
“O tracker faz diferença quando entrega geração adicional com confiabilidade. O problema é quando o equipamento não opera como deveria e parte da planta fica parada, comprometendo todo o cálculo de retorno do projeto”, afirma.
É nesse contexto que a Axial começa a enxergar o retrofit de trackers como uma oportunidade relevante no mercado brasileiro. A empresa está em fase avançada de negociação para modernizar um projeto de grande porte que apresenta falhas operacionais em trackers de outro fabricante. Segundo Sigismondi, cerca de metade da planta opera sem acompanhamento solar adequado.
“A solução que estamos desenvolvendo mantém a estrutura metálica e, em alguns casos, até os motores existentes, substituindo apenas a lógica de controle e a controladora pela nossa tecnologia”, explica. Os testes em campo já foram realizados e indicaram plena compatibilidade do sistema da Axial com os equipamentos instalados.
Embora o retrofit não seja o foco principal da companhia, o executivo reconhece que a iniciativa pode abrir uma nova frente de atuação. “Não é o nosso core business, mas surgiu de uma demanda real do cliente. Se confirmado, pode se tornar um case importante e mostrar que é possível recuperar geração e valor de ativos existentes com investimentos menores do que uma substituição completa”, avalia.
Perspectivas para 2026 e posicionamento da Axial
Para 2026, a expectativa do executivo é de um ano ainda desafiador, com volumes semelhantes ou ligeiramente inferiores aos de 2025. “Será um período de consolidação, em que o mercado tende a separar os fabricantes que realmente vão permanecer no país”, afirma.
Segundo Sigismondi, a Axial conta com uma carteira de projetos que garante sua continuidade no Brasil e permite estruturar a operação local para o próximo ciclo de crescimento. A empresa atua no país desde 2022 e mantém equipes de engenharia, logística, compras e pós-venda instaladas localmente.
“Acreditamos que a retomada mais consistente virá a partir de meados de 2027, com a entrada das novas linhas de transmissão e um mercado mais organizado. Até lá, iniciativas como o retrofit mostram como eficiência, confiabilidade e suporte ao cliente podem ser diferenciais estratégicos”, conclui.
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