Sinais tarifários e arbitragem: o novo horizonte para a energia solar e o armazenamento no Brasil

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A estrutura tarifária brasileira, frequentemente percebida como um entrave regulatório, oferece sinais econômicos relevantes para estratégias de armazenamento de energia. As tarifas de energia elétrica não são homogêneas: combinam componentes associados ao uso da rede (TUSD) e ao consumo de energia (TE), com valores que variam conforme o perfil do consumidor, o horário e a sazonalidade.

No Grupo B (baixa tensão), a Tarifa Branca introduz diferenciação horária entre os períodos de ponta, intermediário e fora de ponta. Para consumidores sem sistemas de armazenamento, essa modalidade pode representar maior exposição a custos elevados no início da noite. Quando associada a baterias, no entanto, a lógica se inverte: a energia solar gerada durante o período fora de ponta pode ser armazenada e utilizada justamente nos horários de maior valor tarifário, reduzindo a dependência da rede nos momentos mais onerosos.

No Grupo A (alta tensão), as tarifas Verde e Azul apresentam sinais horossazonais consolidados. A diferença entre os custos de energia no horário de ponta e fora de ponta pode ser significativa, variando conforme a concessionária e o período do ano. Em diversos casos, o preço do kWh na ponta supera múltiplas vezes o valor praticado fora dela, o que torna a gestão temporal da energia um fator determinante para a rentabilidade dos ativos. Ignorar essas variações compromete diretamente indicadores econômicos como a taxa interna de retorno (TIR) de projetos solares e híbridos.

Arquitetura Tarifária e Janelas de Oportunidade para Armazenamento:

Perfil Tarifário

Principal Componente de Custo

Lógica de Cobrança

Estratégia com Baterias (BESS)

Grupo B (Branca)

Consumo (TE + TUSD)

Preço variável conforme o horário (Ponta, Intermediário e Fora de Ponta).

Arbitragem: Carregar no horário Fora de Ponta (Sol) e descarregar na Ponta (noite).

Grupo A (Verde)

Consumo (ponta e fora de ponta) + demanda única

Consumo elevado na ponta e demanda fixa

Peak Shaving: Reduzir picos de consumo para baixar a fatura de demanda.

Grupo A (Azul)

Consumo e demanda diferenciados por horário

Penalização elevada para demanda na ponta

Gestão de Demanda: Suprir picos críticos especificamente no horário de ponta.

Arbitragem, Peak Shaving e o Valor do Tempo

Nesse cenário, o armazenamento de energia deixa de ser uma solução marginal e passa a ocupar papel central na estratégia econômica dos consumidores. A arbitragem tarifária consiste em evitar a compra de energia nos momentos de maior estresse do sistema, utilizando energia armazenada em períodos de menor custo. Com a implementação da Lei 14.300/2022, a retenção local da energia solar ganha relevância adicional, uma vez que a compensação na rede passou a incorporar encargos antes inexistentes.

O peak shaving, por sua vez, é particularmente relevante para consumidores industriais e comerciais do Grupo A. A possibilidade de suavizar picos de demanda — associados, por exemplo, à partida de motores ou processos intensivos — permite reduzir a demanda contratada e evitar penalidades por ultrapassagem, gerando economia direta sobre um custo fixo significativo.

Figura 1: Perfil típico de demanda elétrica e geração solar ao longo do dia, ilustrando o potencial de deslocamento temporal do consumo com o uso de baterias. (elaborado pelo autor).

A evolução natural dessas estratégias aponta para o load shifting, ou deslocamento de carga. Com o avanço da eletrificação dos transportes, veículos elétricos conectados à residência ou à edificação (V2H) passam a atuar como unidades móveis de armazenamento. A energia solar, gerada em horários de menor valor tarifário, pode ser utilizada posteriormente para atender cargas no período de ponta, ampliando a flexibilidade do consumidor e contribuindo para a estabilidade do sistema elétrico.

A Nova Economia do Autoconsumo sob a Lei 14.300

O marco legal da geração distribuída alterou a lógica econômica do autoconsumo no Brasil. A cobrança gradual associada ao uso da rede de distribuição reduziu a atratividade do chamado “estoque virtual” de energia, deslocando o foco para o consumo instantâneo e para o armazenamento local.

Quanto maior a capacidade do consumidor de utilizar a energia no momento da geração — ou de armazená-la para uso posterior sem recorrer à rede —, menor sua exposição a encargos setoriais, revisões tarifárias e variações associadas às bandeiras tarifárias. Nesse sentido, as baterias funcionam como um amortecedor regulatório e financeiro, conferindo maior previsibilidade ao fluxo de caixa dos projetos.

O Contexto Latino-Americano e a Soberania Energética

A valorização do tempo da energia não é uma tendência restrita ao Brasil. Mercados como Chile e México já registram preços horários muito baixos — e, em situações específicas, negativos — em períodos de elevada geração solar. Na América Latina, a combinação entre abundância de recursos renováveis e expansão do armazenamento posiciona os sistemas de baterias como elemento-chave para a resiliência e a segurança energética.

Figura 2: Sistema conceitual de integração entre geração solar fotovoltaica e armazenamento em baterias.

Imagem: Digitmed, Wikimedia Commons

Conclusão: Engenharia de Valor e Gestão de Dados

O mercado de energia solar no Brasil avança para além da simples instalação de equipamentos. A fase atual exige uma abordagem integrada, na qual engenharia, regulação e gestão de dados convergem para maximizar o valor econômico da energia produzida. O armazenamento deixa de ser um componente opcional e passa a desempenhar papel estrutural na viabilidade de projetos solares e híbridos.

Nesse novo ambiente, a inteligência tarifária se consolida como diferencial competitivo. A energia solar continua sendo o principal vetor da transição energética, mas é a leitura adequada dos sinais de preço — no tempo certo — que define a rentabilidade e a sustentabilidade dos investimentos ao longo da próxima década.

Autor:

Prof. Fernando Caneppele (GEPEA/USP – GESEL/UFRJ – CISTEM)

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