A sombra proporcionada por painéis solares altera o microclima experimentado por ovelhas confinadas, melhorando a termorregulação, a eficiência alimentar e os resultados ambientais, indica um estudo realizado na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV/Unesp), no campus de Jaboticabal, São Paulo. Os resultados mostram que os cordeiros utilizaram a sombra dos painéis, especialmente em dias quentes, onde receberam 30% menos carga de calor radiante do que receberiam se estivessem expostos ao sol.
“Desenhamos a estrutura para harmonizar com a pastagem e diminuir a competição de área, dessa forma há uma otimização do uso de área”, disse à pv magazine Brasil um dos autores, Sérgio Fidelis, em cuja pesquisa de mestrado o artigo se baseia. “A estrutura melhora o conforto térmico dos animais e consegue compensar o metano entérico produzido pelo processo digestivo.”
A criação de ovinos na região sudeste do Brasil tem se intensificado com a implementação de confinamentos, impulsionada principalmente pela competição por terras com outras atividades agrícolas e pela necessidade de evitar o desmatamento para expansão de pastagens. Os ovinos em confinamento muitas vezes são mantidos sem proteção contra a radiação solar, o que pode aumentar a carga térmica sobre os animais, especialmente durante ondas de calor. Além disso, a integração de painéis solares pode gerar renda com a revenda da eletricidade e compensar mais de 60% das emissões de metano entérico do gado sob os painéis.
Diante desse cenário, um sistema agrivoltaico para animais pode representar uma solução sustentável que poderia reduzir a emissão de carbono no sistema, ao mesmo tempo que melhora o microclima e o desempenho produtivo dos ovinos.
Para testar essa hipótese, os pesquisadores alimentaram 52 cordeiros mestiços não castrados, por 60 dias, de maio a junho de 2022, em currais com ou sem sombreamento fornecido por painéis fotovoltaicos, e registraram os indicadores das respostas ao estresse térmico e do desempenho produtivo, como temperatura subcutânea, a frequência respiratória e respostas comportamentais.
A estrutura fotovoltaica de sombreamento testada nas instalações do Laboratório de Biometeorologia Animal da Universidade Estadual Paulista, Brasil gerou 2,3 MWh de energia, o que equivale a 13,70 MWh de eletricidade no ano, evitando assim a emissão de 7,2 toneladas de CO₂e para a atmosfera.
Os animais vivenciaram 41 dias quentes e 19 dias moderadamente frios durante o período do estudo. Nos dias quentes, das 8h às 15h, a irradiação solar média ultrapassou 600 W m⁻² , a temperatura do ar chegou a 30 °C e a temperatura do globo negro, uma medida que indica oimpacto do calor radiante no conforto térmico, atingiu 40 °C. Nos dias moderadamente frios, a irradiação solar média foi inferior a 500 W m⁻², a temperatura do ar inferior a 22 °C e a temperatura do globo negro inferior a 32 °C.
Os cordeiros entraram no confinamento com massa corporal inicial de 35 kg. Metade dos cordeiros foi alocada em baias com sombreamento fornecido por 20 módulos de painéis solares, de 500 W cada, em uma área de sombreamento projetada de 1,53 m² por animal (VOLT), enquanto a outra metade foi alocada em um sistema de confinamento convencional (CON), sem sombreamento disponível.
O consumo individual de ração e o desempenho dos ovinos (por exemplo, consumo de matéria seca, ganho de peso diário (kg) e relação ganho/consumo) foram medidos utilizando comedouros eletrônicos RFID e comparados entre os tratamentos.
Nos dias quentes, das 10h às 14h, os cordeiros do grupo VOLT apresentaram maior probabilidade (P = 0,0001) de estarem na sombra projetada por painéis solares do que ao sol e apresentaram temperatura subcutânea 0,70ºC (P = 0,0001) menor e frequência respiratória 70 respirações por minuto menor do que os cordeiros do grupo CON. Os cordeiros do grupo VOLT passaram mais tempo deitados (P = 0,0001), ruminando (P = 0,0001) e consumiram menos ração (P = 0,0001) do que os cordeiros do grupo CON, o que resultou em uma melhoria de 4% na relação ganho/consumo de ração (P = 0,0002).
Os pesquisadores concluíram que a agrovoltaica animal representa uma estratégia promissora para fomentar a intensificação sustentável da produção ovina em áreas tropicais, uma vez que alivia eficazmente o estresse térmico, ao mesmo tempo que melhora o desempenho animal e proporciona resultados ambientais positivos. No entanto, observam, são necessários mais estudos que envolvam populações animais maiores e avaliações a longo prazo ao longo do ano. Estes permitiriam uma avaliação mais abrangente do impacto do ambiente térmico sobre a saúde animal.
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