Especial off-grid: Brasil atinge 852 MWh em armazenamento e avança com sistemas fora da rede

Soluções de armazenamento potencializam acesso à energia no segmento rural

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O mercado de sistemas fotovoltaicos off-grid e híbridos no Brasil entra em uma nova fase de expansão, impulsionado pela evolução do armazenamento de energia e pela crescente demanda por autonomia e confiabilidade elétrica. Dados da Greener compartilhados para o Especial off-grid da pv magazine Brasil apontam que o país já acumula ao menos 852 MWh de capacidade instalada em armazenamento, sendo 64% desse total associado a aplicações fora da rede elétrica convencional, incluindo sistemas isolados e híbridos.

O avanço está fortemente ligado a políticas de universalização do acesso à energia, mas também reflete uma mudança estrutural no comportamento do consumidor e na dinâmica do setor elétrico.

De acordo com a consultoria, o Brasil conta hoje com cerca de 95 mil sistemas isolados, distribuídos em mais de 200 municípios, com forte aceleração a partir de 2022. Somente em 2025, foram adicionadas aproximadamente 33 mil novas unidades.

Crescimento acelerado e nova dinâmica do mercado

A evolução do off-grid no país pode ser dividida em dois momentos distintos: um período inicial de crescimento gradual até 2021 e uma fase mais recente de aceleração, impulsionada pela maturidade das soluções com baterias e pelo avanço de programas públicos.

“A partir de 2022, o mercado entra em uma nova fase, com forte aceleração na implantação de sistemas”, afirma a analista de inteligência de mercado da Greener, Natanea Guimarães.

Apesar desse avanço, o crescimento não ocorre de forma homogênea. O off-grid segue mais presente em aplicações ligadas ao acesso à energia, enquanto os sistemas híbridos ganham espaço como solução para consumidores já conectados à rede.

Hibridização ganha protagonismo

A principal transformação do mercado brasileiro não está na substituição do modelo on-grid, mas na sua evolução. Sistemas híbridos — que combinam geração local, baterias e conexão à rede — vêm se consolidando como alternativa dominante fora do modelo tradicional.

De acordo com a Greener, 70% dos integradores já oferecem soluções híbridas com baterias, enquanto 24% efetivamente realizaram vendas em 2025, indicando um mercado em expansão, mas ainda em fase de maturação.“O consumidor não está abandonando a rede, mas reduzindo sua dependência dela”, explica Natanea.

Esse movimento é impulsionado principalmente pela busca por confiabilidade energética, que responde por 45% da demanda por sistemas com baterias, seguida por aplicações off-grid (17%) e limitações técnicas da rede (9%).

Viabilidade depende da aplicação

Do ponto de vista econômico, a viabilidade dos sistemas off-grid varia conforme o contexto. Em aplicações que substituem o uso de geradores a diesel, os projetos tendem a apresentar alta atratividade.“Quando há substituição de diesel, a viabilidade tende a ser bastante clara”. Estudos da consultoria indicam reduções de até 77% no consumo de combustível, com payback em torno de dois anos em determinados casos.

Por outro lado, não há um padrão único de retorno financeiro. Em projetos de universalização, a lógica está mais associada ao acesso à energia do que à economia direta, enquanto aplicações privadas dependem de fatores como perfil de consumo, logística e custo evitado.

Queda de custos e desafios estruturais

A redução dos preços das baterias tem ampliado o número de aplicações economicamente viáveis. Segundo a Greener, houve queda de cerca de 20% no CAPEX de sistemas híbridos nos últimos quatro anos, além de tendência global de redução contínua nos preços.

Ainda assim, o mercado enfrenta desafios relevantes. Entre os principais entraves estão o alto custo inicial, a dificuldade de financiamento, a necessidade de capacitação técnica e a baixa percepção de valor por parte dos consumidores. De acordo com a executiva da Greener, “o desafio atual não é apenas tecnológico, mas principalmente de escala, educação de mercado e estruturação da cadeia”.

Norte lidera expansão do off-grid

A distribuição geográfica dos sistemas isolados no Brasil revela forte concentração na região Norte, especialmente na Amazônia Legal. Estados como Pará, Acre e Amazonas concentram a maior parte das instalações, refletindo a dificuldade de acesso à rede elétrica e o alto custo de expansão da infraestrutura. Esse cenário reforça o papel estrutural do off-grid em regiões remotas, enquanto, em áreas conectadas, o crescimento se dá principalmente por meio de soluções híbridas.

Tendência é transformação, não ruptura

Para a Greener, o avanço do off-grid e dos sistemas híbridos não representa uma ruptura com o modelo atual, mas sim uma transformação do sistema elétrico brasileiro.“As restrições de rede tendem a impulsionar não apenas o off-grid, mas principalmente soluções híbridas e microrredes”, afirma Natanea.

A tendência é de um sistema mais descentralizado, resiliente e flexível, no qual diferentes arquiteturas energéticas coexistem para atender às necessidades específicas de cada aplicação.

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