A energia solar na Europa não é apenas uma questão de tecnologia, é também uma dança complexa entre sol, tempo e economia. O ano de 2025 consolidou um marco para a transição energética europeia. Pela primeira vez na história, a combinação das fontes eólica e solar gerou 30% da eletricidade total da União Europeia (UE), superando a participação até de combustíveis fósseis (29%), segundo o relatório European Electricity Review 2026, da EMBER. Mas esse avanço impressionante veio acompanhado de desafios que mostram que a geração renovável depende tanto do sol quanto do conhecimento meteorológico.
A sazonalidade é um fator determinante na geração solar no Hemisfério Norte, onde a produção é regida pela grande variação climática da irradiância. Durante a primavera e o verão, a menor distância zenital do sol e o aumento do fotoperíodo garantem o pico de disponibilidade energética. Em contrapartida, no outono e inverno, a geração é reduzida por fatores como o ângulo de incidência solar mais baixo, a persistência de nebulosidade, dias mais curtos e até o acúmulo de neve sobre os painéis. Adicionalmente, fenômenos regionais também podem atuar como atenuadores críticos, como as plumas de poeira do Saara que, ao cruzarem a Europa Central, elevam a concentração de aerossóis e reduzem drasticamente a transparência atmosférica.
O contraste geográfico também é marcante. No sul da Europa (Espanha, Portugal, Grécia), a irradiação é comparável a partes do Brasil, enquanto no norte (Alemanha, Polônia), pode ser 40% a 60% menor (Figura 1). Por outro lado, temperaturas mais amenas no centro-norte europeu ajudam a manter a eficiência das células fotovoltaicas, compensando parcialmente a menor radiação, já que o calor não sobrecarrega as placas geradoras.

Imagem: Comissão Europeia (PVGIS)
No ano passado, a geração solar atingiu recorde de 369 TWh, com expansão superior a 20% pelo quarto ano consecutivo, representando 13% da matriz elétrica da UE, superando carvão e hidrelétrica. Mais da metade da eletricidade produzida no segundo trimestre veio de fontes renováveis, com a solar liderando momentos-chave, como junho, quando forneceu 22% da eletricidade. O aumento da capacidade foi uniforme: em 14 das 27 nações da UE, eólica e solar já superam os combustíveis fósseis. Países como Hungria, Chipre, Grécia, Espanha e Países Baixos já veem a solar responder por mais de 20% da eletricidade consumida.
O avanço acelerado da geração solar trouxe impactos econômicos diretos. Preços negativos passaram a ocorrer em momentos de pico, principalmente ao meio-dia, quando a radiação solar está no ápice e a demanda não acompanha a oferta. Nesses casos, o custo atacadista cai abaixo de zero, e os geradores chegam a pagar para que a energia seja consumida.
A Espanha se destacou, com mais de 500 horas de preços zerados ou negativos, devido ao salto da capacidade instalada impulsionada por mais de €1,2 bilhão em subsídios, agilidade nos licenciamentos e expansão de projetos de grande escala. A Alemanha também registrou forte impacto da geração solar. Em outubro, a energia solar no país recebeu cerca de €71,55/MWh, valor abaixo dos €84,40/MWh do mercado.
Mais do que excesso de oferta, o desafio reflete a necessidade de investir em armazenamento por bateria para absorver o excedente e garantir maior flexibilidade da rede elétrica. Nesse cenário, a meteorologia deixa de ser apenas uma ciência de observação do tempo e se torna um instrumento estratégico: antecipar frentes frias, plumas de poeira ou padrões de nuvens permite planejar picos de geração, ajustar contratos de energia e evitar desperdício, garantindo que o sistema seja mais eficiente e econômico.
O marco de 2025 evidencia que a transição energética europeia atingiu maturidade, onde eficiência, segurança e valor econômico estão diretamente ligados às condições climáticas. Em uma matriz elétrica dominada por fontes variáveis, previsões meteorológicas precisas são agora fundamentais para decisões de operação, planejamento e investimento, consolidando a meteorologia como pilar estratégico da gestão energética.
Por: Mário Bueno, meteorologista da Tempo OK
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